domingo, 7 de junho de 2015

Campanha pela volta da inflação

Eu que frequento vários forum´s de discussão por aí, tenho notado com incômoda frequência a presença de artigos querendo vender o peixe de que "um pouquinho de inflação" é necessário para o país sair da crise. Tem este aqui por exemplo, ou ainda esse outro. Não que eu desconheça essa velha falácia cepalina que fazia sucesso 50 anos atrás; muita gente acreditou, de Kubitchek a Figueiredo. Mas eu pensei que isso tudo havia sido enterrado em definitivo após o Plano Real. Agora pipocam opiniões por todo lado dizendo que o Plano Real foi uma maldade dos neoliberais e que inflação é bom. Querem o dólar a 4 reais dizendo que irá agilizar as exportações do país, e mais inflação dizendo ser necessário para manter o nível de emprego.

Ora, produzir inflação nada mais é do que emitir moeda sem lastro. Em outras palavras, emitir dinheiro falso. Quando se diz que o índice de inflação é 8%, o que se quer dizer é que de cada 108 moedas de 1 real emitidas pela Casa da Moeda, 8 são falsas. Isso é necessário para criar empregos, dizem. Mas empregos criados com dinheiro de mentira são empregos de mentira, gerados à custa da perda do poder aquisitivo daqueles que já estão empregados. É como se o seu patrão chegasse para você e dissesse: vou descontar 8% do seu salário para dar emprego àquele seu colega que está desempregado.

A quem, então, interessa a volta da inflação?

Ao governo, evidentemente. Pois inflação não é problema algum para quem emite o dinheiro, é problema para quem usa o dinheiro. Para quem emite, então, é solução: basta girar a maquininha da Casa da Moeda que os rombos do governo estão cobertos, e a fatura vai para o infeliz usuário do papel-moeda. É como um imposto invisível, com a vantagem de que pode ser criado sem aquela chatice de comprar deputados. Permite também diminuir salários, o que é proibido por lei: basta dar reajustes inferiores ao aumento dos preços. É óbvio que o governo anseia por ter de volta às mãos instrumento tão poderoso, capaz de fazer eu e você pagarmos pelo dinheiro que o BNDES vai mandar para o séquito de empresários amigos-do-rei. Tudo isso em prol do desenvolvimento do país, é o que dizem.

É nesse ponto que surge a minha suspeita: essa campanha pró-inflação pode ser parte de uma estratégia do governo já em andamento. Uma vez que o aumento de impostos foi barrado no legislativo, e a captação de dinheiro via corrupção foi barrada pelo judiciário, resta a terceira opção de captar o dinheiro do povo via inflação. É a melhor escolha, pois produzir inflação é uma forma de roubo altamente sofisticada, que prescinde até de retirar as cédulas do bolso do roubado.

O que tem segurado o governo até agora é uma coisa só: todo o aumento do consumo da parcela mais pobre da população nos últimos 12 anos, o que tem garantido as vitórias eleitorais do PT até agora, é devido essencialmente à expansão do crédito, que permitiu ao povo comprar geladeiras nas Casas Bahia pagando em 15 vezes. Esse quadro obviamente só se mantem em um cenário de inflação baixa. Se deixar a inflação voltar, a carruagem vira abóbora de novo, e os milhões que passaram à classe C voltam à classe D. Poderá o governo conter o descontentamento dessa gente?

O remédio é esperar, como dizia a música da normalista.

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