domingo, 18 de fevereiro de 2018

Intervenção militar no Rio: a mesma história

Impressionou-me o frisson provocado nos forum´s da internet por conta do anúncio feito pelo presidente Temer de uma intervenção militar no Rio de Janeiro em razão do caos da segurança pública. Por toda parte pipocaram matérias e opiniões, como esta aqui, a maioria descrendo da eficácia da estratégia e fazendo previsões nefastas, como se tal acontecimento fosse coisa inédita e de consequências imprevisíveis. Eu já perdi a conta das intervenções militares no Rio desde 1992, passando por copas e olimpíadas, sempre com os mesmos resultados: os bandidos se escondem enquanto os soldados estão nas ruas, depois tudo volta ao normal.

Mas tanta excitação despertada por um acontecimento que deveria ser percebido como rotineiro e desmoralizado mostra que existe todo um mundo de expectativas e temores por detrás desta proposta, e eles são recorrentes. Pode-se enumera-los.

Um ponto muito comum é ver um significado político na ação. A real finalidade da intervenção militar, dizem, não seria combater o crime, mas impor um estado-de-sítio que eliminasse os adversários do governo opressor e impedisse qualquer revolta da parte do povo oprimido das favelas. É a obsessão do analista de formação marxista em dar uma leitura de luta de classes ao fenômeno da criminalidade. A maioria, porém, aponta um direcionamento errado da estratégia, que supostamente não vai de encontro às "reais causas" do crime. Afirma-se que de nada adianta investir contra as favelas, se as drogas entram no país pelas fronteiras; que melhor seria investigar os bairros elegantes, onde a droga é consumida; que o problema não são as drogas, mas a proibição das drogas; que de nada adianta utilizar as Forças Armadas, se o trabalho é da policia; que de nada adianta utilizar a polícia, se a policia é corrupta; que de nada adiantam ações armadas, se o que deve ser feito é investigação; que o problema não é militar, mas social, cabendo investimentos em educação, saúde e recreação para tirar a juventude do crime.

Um bom apanhado dessa argumentação típica se encontra aqui, nesse artigo da antropóloga Alba Zaluar, que vem estudando a violência no Rio de Janeiro há 30 anos. Ela acredita que a intervenção deve fortalecer a organização criminosa do PCC, insiste que só a inteligência e a investigação resolvem, e chega a temer uma "guerra civil" já que os ânimos da população estão acirrados por causa dos confrontos entre traficantes e polícia. Conclui que o país precisa acabar com a política de guerra as drogas e de encarceramento em massa.

Não sou antropólogo nem especialista em violência urbana, mas sou um bom observador. A impressão que eu tenho é que todas essas recomendações são feitas com o propósito, consciente ou inconsciente, de NÃO resolver o problema.

Devemos vigiar as fronteiras ao invés das favelas, para impedir a entrada de drogas? Que loucura! Nossas fronteiras são imensas e desertas. Se nem os EUA, com todo o aparato humano e tecnológico que possuem, conseguem impedir a entrada de drogas em suas fronteiras, como conseguiremos nós?

Devemos mandar a polícia para a avenida Vieira Souto ao invés da favela do Cantagalo, porque é lá que a droga é consumida? Primeiro de tudo, não há prova alguma de que os ricos consomem mais drogas que os pobres, esta é uma das tantas lendas que de tão repetida ganhou foros de verdade. Ao contrário, tudo o que ouço falar indica que nas favelas o consumo é muito maior, já que as drogas ali são bem mais baratas do que na avenida Vieira Souto. E de qualquer modo, reprimir os consumidores é impraticável, pois eles estão dispersos pelo país inteiro e no mais das vezes consomem as drogas em ambiente privado. É o que eu já havia apontado em meu ensaio A Ampulheta dos Traficantes. A favela é o nodo central e estreito da ampulheta, acima do qual se encontra a boca larga da extremidade produtora, e abaixo da qual se encontra o fundo largo da extremidade consumidora. É no espaço exíguo da favela que se encontra a base material e operacional da distribuição dos entorpecentes, portanto apenas na favela o tráfico pode ser combatido eficazmente.

Bastaria eliminar a proibição do comércio das drogas para o tráfico acabar? Que ingenuidade! Se isso fosse verdade a máfia norte-americana teria acabado no dia seguinte à extinção da Lei Seca, em 1933. Como se sabe, Al Capone e seus asseclas migraram para outros negócios ilícitos. Aqui, nossos traficantes têm quadrilhas montadas, arsenais e capital de giro. Eles também migrarão para outros negócios, e não dá para descriminalizar a extorsão, o sequestro e o contrabando de armas.

O combate ao crime depende de investigação, e não de ações militares? Depende do crime. Investigação é para crime que não foi desvendado. Aqui, nossos traficantes gostam de desfilar à luz do dia exibindo armas, todos na favela sabem onde estão as bocas. A questão é ir lá e iniciar um combate que necessariamente deixará muitos mortos e balas perdidas.

A polícia é corrupta? Então devemos abolir a polícia. Isso resolveria o problema da criminalidade, ao menos do pondo de vista dos criminosos.

O problema é social, e o que devemos fazer é construir creches e escolas nas favelas? Mais escolas = Menos prisões, dizem. Isso podia fazer sentido uns 80 anos atrás, quando muitas crianças moravam na roça, longe de qualquer escola, cresciam analfabetas, depois não encontravam emprego e viravam ladrões de galinha. Hoje, o jovem delinquente da favela frequenta escolas, sim, mas as abandona à medida em que nota que há uma vantagem comparativa em entrar para o crime, pois ganha-se mais e o risco é baixo, posto que mesmo que seja preso logo está solto de novo por decisão do Estatuto da Criança e do Adolescente, que só prevê internação em casos excepcionais. De resto, a escola para ele é um espaço dominado, onde pode agredir professores e colegas, vender drogas e aliciar jovens para suas quadrilhas. Se no passado o combate ao crime passava por mandar os delinquentes à escola, hoje o que urge fazer é tirá-los da escola, para que cessem de ameaçar e corromper seus colegas.

Não haverá nenhuma guerra civil como Alba Zaluar teme. O povo das favelas está acuado e atemorizado, e os únicos que ali possuem armas são os integrantes das quadrilhas, que as usam apenas para seus interesses particulares. Muitos comentaristas de esquerda sonham com o dia em que "a favela vai descer e não for carnaval". Desde o fracasso da luta armada dos anos setenta, que não teve o apoio dos trabalhadores, os pensadores de esquerda têm escolhido os marginais das favelas como seu novo público revolucionário. Faz um certo sentido: os marginais são aguerridos, sabem usar armas e quando querem são até organizados. O problema é que eles são capitalistas.

A meu ver, a solução é uma só: prender os bandidos e mantê-los presos. Isso passa pelo endurecimento da legislação penal, com penas mais longas, e o aumento da população carcerária. Ao contrário de ações armadas, barulhentas, que impressionam no primeiro momento e logo são esquecidas, o encarceramento age como uma esponja que gradual e silenciosamente absorve a população delinquente. Mais bandidos na prisão = Menos bandidos nas ruas. A superlotação das prisões vai fortalecer as organizações criminosas tipo PCC? O que dá origem a essas organizações é o controle das prisões pelos prisioneiros, que acontece inevitavelmente quando o número de agentes penitenciários é pequeno para tantos detentos. É claro que será necessário construir mais prisões e contratar muito mais agentes penitenciários. Tudo isso custará um dinheiro que nossos governantes preferem não gastar, já que construir prisões não dá voto. Por o exército na rua de tanto em tanto sai mais barato, e ao menos por poucos dias contorna a situação.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Revendo Casa Grande & Senzala

Para quem acompanha discussões pelo mundo virtual, uma imagem recorrente, invocada sobretudo nesses tempos de radicalização política, é a da Casa Grande & Senzala como metáfora para nossa grande desigualdade social. Afirma-se que nossa elite ainda vive como os senhores de engenho, e nossa classe trabalhadora é equiparada a escravos. Por minha própria experiência, sei que quanto mais um conceito é banalizado, mais ele se distancia de sua acepção original. Penso então que é oportuno retornar às origens dessa imagem que nos persegue lá vão oitenta e cinco anos, desde que saiu a primeira edição da obra de Gilberto Freyre.

Muitos consideram-na a obra magna de nossa sociologia, a verdadeira explicação do Brasil. É elogiada por haver rompido com o determinismo racial então vigente, que considerava a miscigenação um dos fatores de nosso atraso, e criticada por sua empostação paternalista, que edulcorava a escravidão e a conduta dos senhores. Não vou discutir aqui esses aspectos nem fazer uma resenha completa da obra, o que pode ser encontrado com facilidade em páginas didáticas. Vou apenas admitir que é uma obra datada, que já deu ao conhecimento nacional toda a contribuição que podia dar. Deste ponto em diante, o que existe é especulação, injunções variadas sobre o que Freyre disse ou quis dizer. Um bom exemplo é o epíteto de "democracia racial", frequentemente associado ao livro, mas que não aparece escrito em trecho algum.

Banalizada e incorporada ao imaginário coletivo, a obra foi responsável por uma desastrosa caricatura: o Brasil como uma imensa senzala habitada por mulatas assanhadas e portugueses lúbricos. Segundo se afirma, foi graças aos costumes depravados de nossos antepassados que o Brasil se viabilizou como nação, posto que a miscigenação diluiu o antagonismo natural entre senhores e escravos. Simples assim. Mas até que ponto podemos levar isto a sério? Existe aí de fato um significado antropológico profundo e peculiar ao Brasil?

A resposta não é simples, mas com certeza tal conclusão agrada aos povos do norte, que desde a época das grandes navegações têm alimentado a utopia dos trópicos como sendo uma região onde a moral cristã não se aplicaria: não existe pecado do lado de baixo do equador. Penso que esta é a melhor explicação da caricatura do Brasil-senzala ter sido tão difundida e apreciada mundo afora, chegando a ser materializada e exportada na forma de carnaval e show de mulatas. Tudo se encaixa: os portugueses, povo sulista, já teriam uma propensão natural à mistura com povos tropicais, uma vez que eram descendentes de mouros (esquecido que a norte da África habitado pelos mouros não é tropical, mas subtropical). Quando se encontraram com índias e negras no Brasil, teve então início uma orgia fenomenal que gerou o povo brasileiro. Mas por detrás desse arrazoado se esconde um pressuposto nada científico: que os povos seriam tão mais propensos à sexualidade exacerbada quanto mais habitassem regiões quentes, como se fossem insetos ou lagartixas, que dependem do calor do sol para acionar seu metabolismo.
 
Cientes de como essa imagem foi construída, resta-nos desconstruí-la. A massa de brasileiros miscigenados foi de fato produto de escravas negras estupradas nas senzalas, como se diz? Isso sem dúvida acontecia, aqui como em qualquer lugar ou época onde existiram senhores e escravos. Mas o propósito do estupro não é gerar descendentes. Deve ser lembrado que embora o abuso sexual de escravas fosse aceito pelos costumes da época, a convivência de filhos legítimos e bastardos sob o mesmo teto não era. O próprio Freyre se referiu a perversas vinganças de sinhás ofendidas. Acredito que a maioria das crianças geradas pelas visitas dos sinhôs e sinhozinhos às senzalas era abortada, vendida para outra fazenda ou feita desaparecer de outra maneira.

A verdade é que a grande maioria dos brasileiros miscigenados não foi produto da coabitação de senhores brancos e escravas negras, mas da união dos primeiros colonos portugueses com esposas índias. Foi assim gerada a grande massa de caboclos e mamelucos, que constituíram o extrato mais antigo de nossa população - nem brancos nem índios, mas simplesmente brasileiros. Após a abolição da escravatura, acentuou-se a tendência, vigente até hoje, dos caboclos e seus descendentes se unirem aos negros recém-libertos, que tinham uma condição social parecida com a deles. Vale dizer, a maioria dos indivíduos hoje intitulados mulatos, na realidade são cafuzos, mistura de branco, preto e índio. Isso explica porque a população negra brasileira é tão diferente fisionomicamente da população negra norte-americana, embora sejam descendentes das mesmas etnias africanas.

Eu disse muita coisa? Ao que parece, não. Apenas mudei os atores do mesmo drama: então, ao invés de negras africanas, índias nativas foram estupradas por brancos europeus. Isso deu origem a outra caricatura até hoje bastante difundida: marinheiros portugueses saltando das caravelas e indo fazer amor com índias nuas na praia. Os portugueses, ao contrário dos ciosos colonos anglo-saxões, só queriam farrear e explorar o que a terra tinha para lhes oferecer. Mas foi assim mesmo que as coisas se passaram? Muitas índias foram abusadas, com certeza. Mas deve ser lembrado que, nos primórdios de nossa colonização, não havia mulheres brancas entre os colonos, que eram apenas um punhado tentando sobreviver em uma terra totalmente desconhecida. Nesse contexto, alianças com as tribos nativas eram indispensáveis, bem como a produção de descendentes o mais rápido e em maior quantidade possível, sem os quais os colonos não teriam sequer como subsistir quando lhe faltassem forças para o trabalho. A solução era o casamento com mulheres índias.

Os primitivos colonos portugueses não eram abusadores de mulheres. Eles tinham ligações estáveis com suas esposas índias, pois apenas ligações estáveis podiam produzir a grande quantidade de descendentes que eles necessitavam, e tinham que trata-las com respeito, se quisessem manter as alianças com as tribos. Seguiam os costumes locais, que aceitavam inclusive a poligamia. A lenda de que os portugueses apenas emprenhavam as índias e depois as abandonavam pode ter se originado dos costumes nativos, pelos quais as crianças só ficavam na companhia dos pais na primeira infância, e depois eram criadas coletivamente pela tribo inteira. Bem diferente do que aconteceu na América do Norte, onde desde a primeira leva de colonos já havia mulheres.

Foi este o diferencial: os portugueses coabitavam com índias por uma questão de sobrevivência, e não porque tivessem uma afinidade nata com povos tropicais. Os norte-americanos não fizeram o mesmo porque não tiveram necessidade, se bem que tampouco dispensaram alianças com os índios enquanto eram frágeis e pouco numerosos. Depois que as mulheres europeias começaram a aportar em grande quantidade no Brasil, os casamentos com índias se tornaram desnecessários, e o envolvimento sexual de brancos com índias adquiriu, de fato, um caráter de diversão e abuso, mas é duvidoso que grande quantidade de descendentes miscigenados tenha sido gerado a partir de então. A finalidade do sexo por diversão não é essa, e é sabido que a maioria das tribos praticava o infanticídio e não permitia o nascimento de nenhuma criança indesejada.

Os brasileiros miscigenados não foram produtos do estupro, isso é lenda. É totalmente primário, em termos de antropologia, supor que todo um grupo étnico possa ter sido formado dessa maneira. Nenhum francês aceitaria a tese de que seu povo é o produto de mulheres gaulesas estupradas por legionários romanos, nem um escocês diria que seu povo é originado de mulheres celtas estupradas por vikings, mas muitos, inclusive estudiosos, repetem com toda a seriedade de que o povo brasileiro é formado de mulheres índias e africanas estupradas por portugueses. Isso é falso. O Brasil não é uma imensa senzala, mesmo porque não foi povoado apenas por senhores de engenho e escravos. É esquecido que aqui também aportaram milhões de brancos pobres na qualidade de colonos e imigrantes, que jamais possuíram escravos. A dicotomia Senhor Branco X Escravo Negro, na verdade, nunca existiu da forma como tem sido apresentada. Se os antigos senhores de engenho não invocavam a raça para fundamentar sua presunção de superioridade, conforme Freyre mencionou, foi por um bom motivo: eles próprios não eram brancos puros, mas geralmente caboclos descendentes de índios.

Não é minha intenção desmerecer a obra de Freyre, mas justamente por respeitá-la, desagrada-me vê-la reduzida a um amontoado de chavões em prol da mistura racial e da sensualidade tropical. O que quero dizer é que essa obra não fornece a síntese do Brasil como um todo, a menos que sejam desprezados todos os demais caracteres nacionais que nunca habitaram o universo da casa grande e da senzala. Freyre retratou um Brasil arcaico, que sem dúvida dá embasamento para explicar muito do que somos hoje, mas é uma neurose ou sentimento de culpa acharmos que ainda estamos habitando a casa grande e a senzala do tempo dos senhores de engenho. Penso que é preciso rechaçar essa caricatura e colocar essa imagem onde é o seu devido lugar: no passado. E procurar entender certas colocações do próprio Freyre. Muitos dizem que ele apenas retratou o que via a sua volta. Mas ao contrário da crença generalizada, Freyre era filho de um médico, sempre morou na cidade e nunca vivenciou pessoalmente aquele muno rural e patriarcal que o fascinava. Outras obras do próprio autor ajudam a entender sua obra magna: pouco antes de morrer, ele publicou um livro de memórias intitulado De Menino a Homem, onde narrou experiências sexuais bizarras de sua juventude e deixou claro sua obsessão por sexo interracial.

Podemos perdoar Freyre por um certo excesso de imaginação.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A Desindustrialização do Brasil

Todos aqueles que se formaram, como eu, no último quarto do século passado, acostumaram-se com a dicotomia País Industrializado X País Agrícola sinônimo de Desenvolvido X Subdesenvolvido. Desde Vargas, os governos divergiam em tudo, e só concordavam com a meta: o país devia se industrializar. Isso era ponto pacífico. Variadas políticas foram implementadas em prol da industrialização, com resultados mais ou menos eficazes, mas de modo geral passamos a ver o crescimento da parcela do PIB nacional derivado da indústria como uma tendência inexorável, embora este índice ainda estivesse longe de nos colocar no rol dos países ditos industrializados.

É com inevitável perplexidade que contatamos, nesse quarto inicial do novo século, que o país na realidade está se desindustrializando: a fatia do PIB nacional derivada da indústria de transformação tem caído ano após ano. Esse setor já representou 35% de nosso PIB e hoje não é mais que 12%. De fato, como mostra esse estudo do economista Ha-Joon Chang, o Brasil vive a maior desindustrialização da história da economia.

Onde foi que falhamos? Por que esse quadro, após havermos sido um dos campeões mundiais de crescimento econômico no século passado? Ha-Joon Chang tenta algumas respostas. Explica que os países hoje desenvolvidos iniciaram sua industrialização com base no que Alexander Hamilton, primeiro secretário de tesouro dos EUA, defendeu como o argumento da indústria nascente. Do mesmo jeito que mandamos nossas crianças para a escola ao invés do trabalho quando são pequenas, afirma ele, e as protegemos até elas crescerem, os governos de economias emergentes têm que proteger suas indústrias até que elas cresçam e possam competir com as indústrias de países ricos.

Mas não foi exatamente isso que fizemos?

Ha-Joon Chang é sul-coreano, e portanto deve uma explicação de como seu país conseguiu sólida industrialização em tão pouco tempo, constituindo-se um modelo de sucesso junto ao terceiro mundo. Por aqui, acostumamos-nos a apontar a Coréia do Sul como o oposto do Brasil: aquele que foi bem sucedido onde falhamos. No Brasil teria havido uma excessiva dependência da indústria nascente para com o Estado, enquanto lá desde cedo as indústrias tiveram que competir no mercado global. Mas uma análise mais detalhada mostra que há mais semelhanças do que diferenças entre os modelos coreano e brasileiro. Lá também houve pesada interferência do Estado e muito protecionismo. Esse é o ponto mais destacado na argumentação de Ha-Joon Chang, que critica os países desenvolvidos por condenarem o protecionismo nos países pobres após eles próprios haverem se desenvolvido graças ao protecionismo. Afirma ele, os países ricos estariam "chutando a escada", após haverem subido por ela. Esse aliás é o título de um de seus livros. Chang lamenta que após a crise de 1997 seu país aderiu aos ditames "neoliberais", e se antes crescia a 7% ou 8% ao ano, agora não cresce a mais de 3%.

Quanto a mim, careço de informações mais abundantes, mas parece-me irracional que os coreanos sejam tão idiotas a ponto de manterem por 20 anos um modelo tão ineficiente ao invés de retomar o modelo antigo muito mais eficiente. A explicação deve ser outra. A crise de 1997 deve ter representado o esgotamento de um modelo. De fato, altos índices de crescimento são esperados nos primórdios da industrialização; afinal, onde há uma fábrica e se constrói mais uma, o crescimento é de 100%, certo? E um índice na faixa de 3% é normal em países já desenvolvidos. Penso, então, que a desaceleração do crescimento da Coréia do Sul meramente indica aquilo que o senso comum já percebeu: a Coréia do Sul tornou-se mais um país desenvolvido.

E o Brasil? Pondo de lado rótulos bipolares como "neoliberalismo" e "protecionismo", e rebuscando minhas próprias memórias, recordo-me que o momento em que o percentual da indústria no PIB atingiu seu auge de 35% correspondeu ao pior momento de nossa economia: foi nos anos 80, a década perdida, em meio à inflação e ao desemprego. No momento atual esse percentual caiu para 12%, mas ninguém dirá que estamos pior hoje do que em estávamos nos anos 80 do século passado. Ao menos não no ponto de vista social. Também estamos em recessão, mas o desemprego e a inflação não se comparam ao que eram naquela época. E deve ser lembrado que a tendência de queda do percentual da indústria no PIB é anterior à presente recessão.

Então, afinal, talvez o fenômeno da desindustrialização não seja algo tão ruim assim. Deve ao menos ser entendido melhor, e observado que também ocorre em países desenvolvidos: mesmo os EUA estão se "desindustrializando" em alguns setores, exportando suas fábricas para países pobres. O modelo de "país industrializado" hoje em dia é a China, com sua indústria de mão-de-obra intensiva e baixa qualidade, que apesar de seus altos índices de crescimento, ainda apresenta um PIB per Capita inferior ao do Brasil. De fato, a tendência nos países ricos é o encolhimento do setor secundário (indústria) e concomitante crescimento do setor terciário (serviços), tal como no século 19 o setor secundário cresceu com o correspondente encolhimento do setor primário (agricultura). Pode estar havendo fenômeno similar aqui?

Em alguma medida, pode. O setor terciário também cresce entre nós. E note-se que apesar do encolhimento da indústria e crescimento da agricultura no percentual do PIB, isso NÃO significa que nosso setor primário esteja voltando a crescer. O número de brasileiros que trabalha no campo só tem diminuído. Isso denota que o crescimento da fatia da agricultura no PIB não se deve somente ao encolhimento da indústria, mas ao crescimento em termos brutos de nossa agricultura, que hoje é muito mais moderna e produtiva. É melhor ter uma agricultura moderna do que uma indústria ultrapassada? O ideal, sem dúvida, é modernizar ambos, mas no século passado assistimos a sucessivos surtos de industrialização puxados por incentivos do Estado, que refluíram tão logo cessaram esses incentivos. A indústria naval e a informática são exemplos. Se tenho saudades dos computadores nacionais dos anos 80, os piores e mais caros do mundo? Com certeza não. Mas se nossos empreendedores ainda estão sonhando com a revogação da abertura dos portos de 1808 e a volta do velho mercantilismo colonial, quando todo empreendimento só se fazia com o aval do rei, que concedia monopólios a seus protegidos, então o melhor é que vão mesmo plantar batatas.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A Gênese do Mundo Ocidental

Uma hora ou outra, todos sentem vontade de responder à pergunta: quem somos? De onde viemos? Por que somos assim? Geralmente isso ocorre nos momentos de insegurança, quando sentimos nossas convicções abaladas. Na dúvida, queremos agarrar a nossa tábua de valores. Por este motivo, é útil decifrar o gênese de nosso mundo, o Mundo Ocidental, e oportuno fazê-lo nesse momento em que o fenômeno da globalização ameaça dissolver as identidades em um caldo único, e inclusive muita gente deseja declarar que não pertencemos ao ocidente, tema de outro ensaio meu.

A Civilização Ocidental é recente se comparada a outras como a chinesa e a japonesa, tem no máximo dois mil anos, mas só fez jus de fato a essa designação a partir da Alta Idade Média. Antes o ocidente era Roma e o oriente era a Grécia, sendo que o norte da Europa era totalmente distinto. A menção meramente geográfica, Oeste X Leste, já não faz mais sentido na época atual, mas o núcleo difusor da civilização ocidental efetivamente teve início em um local geográfico que correspondia ao oeste de um continente. Aquelas terras do mundo que receberam o influxo desta civilização compõem hoje o Mundo Ocidental, e são tão geograficamente dispersas quanto a América Latina e a Nova Zelândia. Mas precisamos recuar dois mil anos no tempo para levantar o gênese deste mundo.

O senso comum é que a Civilização Ocidental possui quatro pilares: a herança greco-romana, origem dos idiomas, das instituições e da filosofia, e a herança judaico-cristã, origem das crenças e valores. Mas como esses pilares se uniram não é tão fácil explicar. Mesmo porque, em sua origem, eles eram bastante disjuntos. A primeira noção de um ocidente oposto a um oriente vem a surgir na Grécia de cinco séculos antes de cristo, época das guerras contra os persas. Na visão dos gregos, os persas constituíam não apenas seu inimigo, mas também uma anti-civilização, oposta em tudo à helênica. Assim, o mundo dos bárbaros passou a ser o oriente. Para a porção ocidental da Europa além da Grécia, contudo, essa dicotomia ainda não fazia sentido.

Após a conquista romana, a Grécia passou a ser o oriente. Roma era o ocidente. Mas como é norma acontecer nos casos em que a superioridade militar não corresponde a uma superioridade cultural, os romanos assimilaram o legado cultural dos gregos, e as duas civilizações se fundiram. Temos aí os dois primeiros pilares fincados. Mas o norte da Europa nada tinha a ver com o mundo greco-romano; sua civilização era peculiar, e eram considerados tão diferentes quanto os povos da Ásia Menor. Como foi que essa porção do mundo se incorporou ao contexto civilizacional greco-romano, formando a Europa como hoje a conhecemos? Ironicamente, foi graças aos bárbaros da Ásia Menor, devido a uma religião por eles difundida. Inicialmente, a conquista militar só incorporou ao mundo romano o oeste da Europa, mas quando Roma já não tinha a força militar, sua civilização passou a difundir-se por meio da religião à qual se haviam convertido, o cristianismo.

Penso eu, se a herança greco-romana forneceu as pedras da construção, a herança judaico-cristã foi o cimento que as uniu. Uma religião que incorpora uma ética lida com crenças íntimas, onde se encontram as convicções mais profundas do homem do povo. Pode ser difundida pela força, mas também, e mais eficazmente, pela persuasão. Missionários propagam uma civilização de forma mais rápida, limpa e completa do que legionários ou mercadores. Não foi à toa que para a conquista do Novo Mundo, padres e pastores desempenharam um papel essencial. Mas afinal como foi que uma religião vinda do oriente, totalmente estranha aos valores romanos, foi aceita por este povo que desprezava os orientais como bárbaros?

Esse é um dos grandes mistérios da História, ainda não totalmente explicado. A combinação de componentes tão opostos quanto o politeísmo romano e o monoteísmo judaico, a filosofia grega e o dogmatismo cristão, não se deu em um instante, nem foi isenta de luta. Foi assim como uma reação química fulminante, que combina ingredientes imisturáveis e produz um composto totalmente distinto. O processo inteiro levou cerca de cinco séculos, e na maior parte do tempo distinguiu-se mais por estranhamento do que por adesão.

O choque começou entre os dois pilares do oriente, o judaísmo e o cristianismo. Como se sabe, o cristianismo foi repudiado em seu local de nascimento, a Judéia romana, mas propagou-se com rapidez nos arredores. Jesus aparentemente era analfabeto, pois não deixou obra escrita, mas sua doutrina foi apropriada por seus seguidores. Inicialmente uma seita do judaísmo, o cristianismo ganhou identidade definitiva de nova religião quando surgiram os primeiros textos doutrinários escritos, sobretudo os de autoria de São Paulo. Mas a herança judaica foi acomodada na nova religião como o Antigo Testamento, traduzido para o grego entre os séculos I e III A.C. em Alexandria, versão conhecida como septuaginta por supostamente haver sido redigida por setenta escribas. Os dois pilares do oriente estavam unidos.

A penetração da nova religião no mundo romano foi mais traumática. Mesmo porque, em perspectiva, a crença judaico-cristã nada tinha a ver com a mentalidade romana, que prezava o corpo, a glória e a riqueza terrenas. Os primeiros cristãos eram vistos como uma seita macabra que se refugiava em catacumbas, onde celebravam, dizia-se, rituais medonhos onde comiam o corpo e bebiam o sangue de um tal Jesus. E além disso ainda repudiavam o banho. Não admira que fossem responsabilizados pelo incêndio de Roma, já que viviam falando de um fim do mundo pelas chamas. Foram reprimidos com violência, mesmo porque a adesão cada vez maior da parte dos escravos alimentava o receio de uma revolução social. Mas a despeito de tudo isso, o número de convertidos crescia sem parar.

A única explicação que encontro é que a mensagem dos cristãos tinha, efetivamente, uma aceitação profunda da parte dos homens e das mulheres do povo, propiciando-lhes um conforto que as religiões então existentes nunca poderiam permitir. Diferente dos deuses pagãos, o deus dos cristãos não se limitava a conceder graças em troca de oferendas, mas exigia um comportamento ético da parte de seus seguidores. Proibia o roubo, a cobiça e a violência. Já os deuses pagãos relacionavam-se com seus seguidores mais ou menos da mesma forma que qualquer senhor poderoso da época relacionava-se com seus clientes: apenas uma troca de favores. Não amavam nem eram amados, nada tinham a ensinar, favoreciam àqueles que concediam-lhes as melhores oferendas e castigavam impiedosamente conforme sua veneta. O deus dos cristãos tinha para com seus seguidores uma intimidade só concebível entre duas criaturas unidas por amor sincero, e preenchia profundas carências, comuns em uma época de insegurança e violência desmedidas. Seus ensinamentos aliviavam a opressão cometida por senhores contra seus servos, e sobretudo contra as mulheres: dizer isso hoje em dia pode soar estranho, mas quando de seu surgimento, o cristianismo impôs uma sensível melhora na condição feminina se comparado ao que havia antes. Proibiu a poligamia e o divórcio, o que não é pouca coisa levando-se em conta que os homens de então podiam ter várias esposas e divorciar-se delas sem lhes dar nada.

Aceito o cristianismo como a religião oficial do império romano, veio o embate seguinte, opondo a doutrina cristã à cultura helênica. Agora são cristãos os opressores; destroem templos pagãos, mas também perseguem filósofos e cientistas. Foi uma luta violenta e repleta de lances trágicos, como o linchamento da filósofa Hipatia de Alexandria por uma turba enlouquecida. Por um instante parecia que os cristãos iam liquidar a vida intelectual do mundo grego e reduzir a recém-nascida civilização ocidental à mediocridade, mas a previsão não se cumpriu. O legado intelectual dos gregos acabou por ser acolhido entre os cristãos, e tão bem preservado que mil anos após conheceria um formidável florescimento, que dura até hoje. Difundido por toda a Europa por intermédio de escolas e universidades, formatou o racionalismo e o cientificismo que hoje nos parecem inseparáveis da mentalidade ocidental. Conceitos como democracia, cidadania e civismo, ao ressurgirem no século 18, pareciam tão atuais quanto no tempo dos atenienses, evidenciando o quanto a herança grega acompanhou a gênese de nossa civilização, mesmo que por muitos séculos permanecesse arquivada e disponível apenas a uns poucos letrados.

Foi assim que chegamos aqui. Quatro pilares, que pareciam de todo inconciliáveis, de algum modo se combinaram e forneceram um patamar extremamente sólido para uma civilização que, bem ou mal, tem sido a dominante no planeta nos últimos cinco séculos.

Só não entendo porque os ocidentais têm um afã tão grande em criticar e renegar sua própria civilização. Sentimento de culpa?

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Em busca do Jesus Histórico

Todo final de ano, época de natal, é a mesma coisa: são exibidos na TV paga várias séries e documentários especulando sobre o "verdadeiro Jesus", ou o Jesus histórico. Confrontam informações da bíblia com as de historiadores antigos e da arqueologia, são em geral interessantes mas pecam pelo excesso de imaginação, deixando mais perguntas que respostas. Não sou nenhum especialista em teologia, mas tenho algumas opiniões a respeito.

O primeiro ponto que me chama a atenção é: como personagem de tal importância não foi citado por nenhum cronista contemporâneo? Josephus citou Herodes, Pilatus e João Batista, mas não disse uma palavra sobre Jesus, que só começa a aparecer em textos escritos mais de cem anos depois. A explicação que encontro é que Jesus era analfabeto, pois não existe amostra de sua escrita. Essa premissa é compatível com a origem humilde do messias. Por este motivo, suas ideias se propagaram inicialmente apenas por via oral, com lentidão. Seus ensinamentos não foram escritos pelo próprio, mas por discípulos conhecidos como evangelistas, sendo de todo justo que se levantem dúvidas quanto a sua autenticidade; de fato, há várias versões dos ditos evangelhos, algumas bem divergentes, mas a Igreja adotou como autênticos quatro textos que correspondem mais ou menos um ao outro. Os demais são considerados apócrifos. Alguns têm todo jeito de narrativa folclórica, como aquelas passagens da infância de Jesus fazendo mágicas para os amigos e atazanando seus pais, mas outros são bem instigantes. A discussão é longa e vou parar por aqui.

Outro ponto que me chama a atenção é a diferença da pregação de Jesus comparada com a dos demais profetas do Antigo Testamento. Todos aqueles tinham o foco no coletivo, dirigiam-se ao povo, censuravam os costumes do povo e anunciavam castigos para o povo inteiro. Jesus falava ao público, mas sua mensagem se dirigia ao indivíduo. Diversas passagens dos evangelhos mostram colóquios individuais entre Jesus e um interlocutor, geralmente uma mulher. Aparentemente, Jesus não foi influenciado por aqueles profetas antigos, então de que fonte bebeu? Houve época que estava na moda apontar Jesus como um membro dos essênios, a seita mais exotérica do judaísmo; há de fato pontos em comum, mas um estudo mais detalhado da doutrina dos essênios desmente essa assertiva. Outros comentaristas vão além e fazem um paralelo com o budismo. Faz algum sentido: de fato, o desapego aos bens materiais não era ideia muito em voga no Oriente Médio até então, mas é preciso muito esforço para imaginar Jesus viajando à Índia e à China para adquirir seus conhecimentos. Teria Jesus desenvolvido sua doutrina inteiramente sozinho? Alguns afirmam que ele foi discípulo de João Batista, mas nada se pode provar.

Mas inevitável mesmo, e recorrentes, são as especulações em torno de um Jesus "libertador", ou seja, revolucionário. Jesus censurava os ricos e exaltava os pobres. Um socialista? Jesus afirmou que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Disse, aquele que tem duas capas, dê uma aos pobres. Quanto a mim, não tenho dúvida nenhuma: se Jesus fosse mesmo um socialista, teria aceito a sugestão de satanás no deserto, de transformar pedras em pães (para distribuir aos pobres, é claro, mas também pegar para si, que ninguém é de ferro, né?) bem como a sugestão de adorar satanás prostrado para em troca ter o poder sobre todos os reinos da terra (para governar em favor dos pobres, é claro). Havia um discípulo em particular que pensava dessa maneira. Uma ocasião em que uma pecadora arrependida banhou os pés de Jesus com um perfume caríssimo, ele se indignou e declarou que melhor seria vender aquele perfume e distribuir o dinheiro aos pobres. Resposta de Jesus? Pobres, sempre os tereis convosco. O nome do discípulo? Judas Iscariotis. Que bem pode ser considerado o patrono da Teologia da Libertação, bem como da mais atual Teologia da Prosperidade...

A concepção de um Jesus "socialista" revela uma compreensão incompleta de sua doutrina. Jesus pregava o desapego aos bens materiais como premissa necessária para se obter a elevação espiritual. Portanto, o conselho de vender os bens e distribuir aos pobres tinha o propósito de beneficiar o doador dos bens, e não o receptor, pois de resto Jesus sempre esteve ciente de que mesmo se todos distribuíssem seus bens aos pobres, não bastaria para erradicar a pobreza do mundo - pobres, sempre os tereis convosco. Que Jesus não era um revolucionário, disso também estava ciente Pilatus, que hoje se sabe, era adepto da repressão violenta aos oponentes do domínio romano, e dispunha de um ótimo serviço de informações. Por isso sabia que Jesus não se opunha a Roma, e até declarava ser válido pagar impostos a César; era anátema para a elite farisaica, não para os romanos. No máximo, um desordeiro, caso para umas chicotadas, que Pilatus prontamente mandou aplicar, mas um governante romano deve preservar a Paz Romana, e por este motivo Pilatus cedeu aos sacerdotes e mandou crucificar Jesus.

Tenha sido quem foi o Jesus histórico, é fato que o cristianismo, religião surgida no oriente, foi indispensável para o estabelecimento da civilização ocidental como a conhecemos.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Qual vai ser a reencarnação do PMDB?

Falar das próximas eleições é falar de História?

Sim, desde que se conheça a gênese dos partidos políticos. Quem conhece, não se espanta com certos fenômenos, pois é tudo dejà vu. Certos partidos políticos são a reencarnação de outros partidos do passado. É o caso do PMDB, que não lança candidato próprio faz 30 anos, mas está no poder desde sempre. O PMDB, como se sabe, é a reencarnação da velha ARENA implodida quando da eleição de Tancredo Neves, a qual, por sua vez foi a reencarnação do velho PSD, que por sua vez foi a reencarnação de velhos partidos da república velha. Em comum, todos esses partidos têm a ausência de ideais autônomos e o oportunismo de fazer conchavos que atendam a interesses provincianos, corporativos ou meramente pessoais de seus integrantes. Parece desprezível, mas são precisamente esses conchavos que permitem o que se chama a governabilidade. Em outras palavras, significam que o partido que está nominalmente no poder pode governar de fato, posto que assim se cria uma teia de compromissos que mantém colaborativas ou pelo menos quietas em seu canto todas as forças capazes de influir na política. Alguns presidentes, como JK, foram especialmente habilidosos em tecer essa teia, outros nem tanto, mas todos dependeram da existência de um partido que aglutinasse aqueles que não tinham ideais, apenas interesses.

Esse partido precisa existir, pois sem ele as peças do jogo político não se movem. É o chão da política, por assim dizer. É sujo? Sim, mas ser sujo é da natureza de todo chão, assim como é da natureza do chão sustentar o que se constrói sobre ele. E devemos admitir, o PMDB tem executado bem essa função nos últimos trinta anos. Sem fazer alarde, sustentou o bipartidarismo PSDB & PT que sucedeu ao colapso do nacional-estatismo autoritário e bem ou mal tem feito o país funcionar desde o Plano Real. Mas nada é para sempre, e como dizem os alemães, tudo tem um fim, exceto a salsicha, que tem dois. Revendo o passado, todos os partidos que correspondem às reencarnações passadas do PMDB um dia implodiram. E observando o quadro atual, com a crise, os escândalos e as prisões de seus principais dirigentes, a mim não fica dúvida: o PMDB acabou. Pode até estar nominalmente no poder, mas tem o presidente com menor índice de aprovação da história, sem a mínima possibilidade de fazer seu sucessor. Pode até ser majoritário no legislativo, mas não tem mais lideranças capazes de mobilizar seus próprios deputados a votar em projetos do governo, se é que estes ainda existem.

Sem o PMDB para formar o chão, o quadro eleitoral torna-se instável, e aparecem os arrivistas, outra tendência atávica de nossa política, já abordada por mim em outros artigos. Conhecemos bem as consequências a longo prazo desses arrivistas no poder, mesmo que tenham nele permanecido por pouco tempo. É improvável que o bipartidarismo PSDB & PT vá continuar, mesmo porque tampouco PSDB e PT são os mesmos. Fica a indagação: quem será a reencarnação do PMDB, que irá proporcionar uma nova era de estabilidade política?

Um candidato a este papel  é o PSDB, um abortado partido social-democrata que se tornou liberal por força da circunstâncias, que até ontem fez par com o PT, um abortado partido bolivariano que se tornou social-democrata por forças das circunstâncias. O PSDB bem poderia descer mais um degrau e tornar-se conservador, reencarnando o PMDB. Mas retornando ao exemplo da História, convém lembrar que a encarnação passada da velha ARENA não foi a UDN, partido opositor aguerrido, e sim o PSD, partido de conchavos. E nos últimos anos, mais precisamente desde a primeira eleição de Lula, o PSDB tem sido mais uma UDN renascida, posto que foi única oposição declarada ao governo petista, mesmo que nem de longe tão ferina quanto a dita cuja. Para quem foi UDN, parece tarde para ser PSD. Sem renovação em suas lideranças, o PSDB periga cair na irrelevância e deixar o campo livre para o PT, que está bastante abalado, mas ainda tem Lula na liderança das intenções de voto. Mas como será um futuro governo do PT sem o PMDB para lhe garantir a tão necessária governabilidade? Periga fazer o caminho oposto, e de social-democrata passar a bolivariano, isso se tiver força. Se não tiver, suprema ironia, periga do próprio PT tornar-se a reencarnação do atual PMDB, devidamente amansado e sanitizado, tornado viveiro de políticos profissionais.

O ano que vem dará as respostas.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Revendo os Guias Politicamente Incorretos

Já está na TV paga uma série mostrando reportagens sobre os conhecidos Guias Politicamente Incorretos, apresentada entre outros por Leandro Narloch, autor da maioria deles. Eu li todos, e saudei o seu surgimento como enfim um rompimento com os esquematismos ideológicos que vem dominando o ensino de História desde o quarto final do século passado. A popularidade dos guias bem mostra que o público estava cansado das repetições de sempre: que os índios foram sempre vítimas, que o Brasil promoveu um genocídio no Paraguai a mando dos imperialistas britânicos, que nossos heróis foram uns canalhas etc. Mas desde o primeiro ficou na minha cabeça uma advertência levantada por Narloch: não seriam esses guias tão politicamente enviesados quanto os textos que eles combatem?

São, sim, politicamente enviesados como o próprio autor deixou implícito ao admitir que seu propósito era mostrar como é fácil exibir uma versão tendenciosa dos fatos históricos. E convém lembrar, Leandro Narloch não é um historiador, mas um jornalista. Ele não foi às fontes originais obter informações novas, apenas exibiu informações já sabidas mas que vinham sendo sistematicamente omitidas pelos cultores do politicamente correto, a fim de apresentar uma nova versão. Falsear a História é fácil porque não é preciso mentir, basta omitir. Enfatizar aqui e minimizar ali. Mas já é tempo de se fazer uma revisão dos guias politicamente incorretos. Controvérsias não faltam, mas vou me ater aos aspectos que considero mais triunfantes dos guias.

O primeiro deles, sem dúvida, foi acabar com a imagem romântica que se tinha dos índios, vistos como um povo pacífico que vivia em comunhão com a natureza, procurando conservar a floresta que os colonizadores destruíram. Para começar, os índios não são um povo, mas vários povos, que não falavam as mesmas línguas nem eram exatamente amigos uns dos outros. Recentes descobertas arqueológicas, já comentadas aqui por mim, revelam que havia grandes aldeias no feitio de cidades, roçados e pomares em diversas regiões. Então, quinhentos anos atrás não devia haver muito mais floresta nativa do que há hoje. É claro que os índios também destruíam a floresta. Não foi devidamente explicado porque essas grandes aldeias desapareceram, mas a arqueologia também revelou que diversas culturas tiveram períodos de expansão e declínio antes da chegada dos portugueses, certamente o resultado de guerras e condições naturais adversas. Os índios não precisavam dos colonos para exterminar os índios, sabiam fazê-lo eles próprios. O que não deve causar surpresa, pois nunca foram vítimas patéticas, mas povos com interesses próprios, que como todos os outros, também jogaram o Jogo da Civilização. Às vezes ganharam, outras vezes perderam.
Bem oportuno foi o desmentido da versão da Guerra do Paraguai lançada pela conhecida obra de JJ Chiavenatto: Guerra do Paraguai, Genocídio Americano, que vinha sendo adotada como versão oficial nas escolas, e contava a história de uma guerra onde Brasil e Argentina foram fantoches dos imperialistas britânicos, interessados em liquidar o Paraguai, que supostamente dispunha de um modelo desenvolvimentista independente das grandes potências. Na verdade, essa versão já havia sido derrocada pela excelente obra Maldita Guerra, de Francisco Doratioto, essa sim completa e com sólida base documental e metodológica. Os ingleses não tinham interesse em destruir o Paraguai, e no início do conflito, quem tinha relações cortadas com o Império Britânico era o Brasil, consequência da Questão Christie. Ao contrário, os ingleses tinham aceito a encomenda de navios de primeira linha por parte do Paraguai, que acabaram não sendo entregues porque a guerra eclodiu antes. Ficou mostrado que Chiavenatto queria fazer um paralelo entre o Brasil, o Paraguai e a Inglaterra do século 19 com o Brasil, Cuba e os EUA do século 20, sendo os EUA o modelo da potência imperialista que foi a Inglaterra, o Brasil o modelo do estado subalterno aos imperialistas, e o Paraguai de López uma espécie de Cuba onde toda a população era alfabetizada, não havia propriedade privada e todos trabalhavam para o Estado. Não era bem assim. No Paraguai da época, as terras pertenciam ao Estado, mas o Estado pertencia aos lopistas.

Foi também oportuna a revisão do retrato estabelecido de alguns heróis nacionais. Não que o propósito fosse denegri-los, a intenção era mostrar como certas versões originadas de boatos ou pura ficção acabaram se tornando verdade de tão repetidas, ou por serem sedutoras. Todos conhecem o artista Aleijadinho, que sofria de grave enfermidade que lhe fez cair os dedos das mãos, e executava suas obras com as ferramentas amarradas ao que sobrou de seus membros. O que muitos não sabem é que quase todas as informações que se tem sobre ele provem de um livreto escrito décadas após sua morte, e as fontes do autor são desconhecidas.

As escassas provas materiais da existência de Aleijadinho, além das obras atribuídas a ele, são recibos assinados pelo artista, o que prova que ele tinha dedos nas mãos que lhe permitiam, ao menos, segurar uma pena. A lenda de que ele trabalhava com as ferramentas atadas às mãos doentes sempre me despertou certa desconfiança. Ainda que fosse possível atar as ferramentas ao que lhe sobrara das mãos, ele por certo não suportaria a dor de manusea-las. Convém lembrar, as madeiras nobres utilizadas em estatutária são bastante duras, e entalhá-las é tarefa desgastante até para quem é sadio. A realidade deve ter sido menos fantástica. Lembrou o autor dos guias, a arte barroca é um trabalho essencialmente coletivo, e lembro eu, o artista apelidado de aleijadinho era bem conceituado, e é plausível supor que dispunha de um ateliê com bom número de auxiliares, e ao final da vida, já doente, ele se limitasse a supervisionar os trabalhos.

Parabenizo o autor pela coragem de mexer com um dos heróis mais unânimes de nossa história, o inventor Santos Dumont. Mais uma vez, o propósito não era denegri-lo, apenas chamar a atenção para um mal entendido que vem desde o início do século passado: não foi ele o inventor do avião. Os irmãos Wright voaram primeiro.

A polêmica é antiga, mas desde algum tempo eu já havia dado ganho de causa os americanos. Não vou entrar aqui no mérito de questões técnicas do voo, como o uso ou não de uma catapulta para fazer decolar. Chamo a atenção para um aspecto mais óbvio: foi a configuração da aeronave dos irmãos Wright que prevaleceu. E essa configuração era totalmente diferente daquela do 14-bis.
Quase todo mundo (eu inclusive) quando vê uma foto do 14-bis imagina-o voando com a hélice na frente e o leme atrás. Mas era o contrário. A hélice ficava atrás, junto com o piloto e as asas, e o leme (ou profundor) ficava na frente. Essa configuração, batizada de canard (pato, em francês) é totalmente estranha nos dias atuais, e por um bom motivo: nunca foi encontrada uma solução de estabilidade para ela. Quando tentava fazer curvas, o 14-bis facilmente perdia a sustentação, e acabou destruído em um acidente. Santos Dumont construiu outra aeronave, batizada número 15, com uma configuração semelhante à do 14-bis, que acabou destruída em um acidente também muito semelhante. Desde então a configuração canard nunca mais foi usada por nenhum construtor de aviões, nem mesmo pelo próprio Santos Dumont. Já a aeronave dos irmãos Wright lembra em tudo um avião atual: motores montados sobre as asas, piloto na frente, leme e profundor atrás. Todos os aviões atuais utilizam esta configuração.

Fora do Brasil, Santos Dumont nunca foi considerado o inventor do avião. Na realidade, ele levava mais fé em balões dirigíveis, no que aliás não estava de todo errado, pois até o acidente com o Hindenburg, os dirigíveis foram os mais utilizados em viagens transoceânicas. Isso fica implícito até no nome que deu a seu invento, 14-bis, denotando que no projeto original a aeronave seria apenas um complemento a seu balão número 14. Só depois de muita insistência de amigos ele decidiu dar meios a sua aeronave para decolar por conta própria. A pessoa de Santos Dumont é fascinante e paradoxalmente pouca conhecida de brasileiros. Eu recomendo a leitura de Asas da Loucura, escrita por um americano. O inventor foi, acima de tudo, um excêntrico. Não almejava ganhar dinheiro, mas trabalhava apenas por prazer, e conforme sua inspiração, podia tanto fazer inventos úteis quanto bizarrices estilo Professor Pardal. Foi um grande homem, mas não foi o inventor do avião.

Também nesse quesito de figura histórica construída por obras literárias ao invés de fatos, eu poderia citar Dona Beja, que todos conhecem, mas poucos sabem que a história que é contada em novelas baseia-se em um romance escrito muito depois de sua morte. A personagem existiu, mas quase tudo que se diz sobre ela é lendário. O mesmo acontece com Xica da Silva. O caso é que há heróis que surgem para satisfazer uma demanda do público, e personagens históricos são escalados para este papel. Os guias citam também Lampião, até hoje herói popular, mas que na realidade foi um bandido cruel, amigo de vários coronéis do sertão e que não tinha nenhum apreço pelo zé-povinho.

Os guias são tendenciosos e possuem falhas, mas a discussão suscitada por eles é sempre bem vinda.