segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Revendo os Guias Politicamente Incorretos

Já está na TV paga uma série mostrando reportagens sobre os conhecidos Guias Politicamente Incorretos, apresentada entre outros por Leandro Narloch, autor da maioria deles. Eu li todos, e saudei o seu surgimento como enfim um rompimento com os esquematismos ideológicos que vem dominando o ensino de História desde o quarto final do século passado. A popularidade dos guias bem mostra que o público estava cansado das repetições de sempre: que os índios foram sempre vítimas, que o Brasil promoveu um genocídio no Paraguai a mando dos imperialistas britânicos, que nossos heróis foram uns canalhas etc. Mas desde o primeiro ficou na minha cabeça uma advertência levantada por Narloch: não seriam esses guias tão politicamente enviesados quanto os textos que eles combatem?

São, sim, politicamente enviesados como o próprio autor deixou implícito ao admitir que seu propósito era mostrar como é fácil exibir uma versão tendenciosa dos fatos históricos. E convém lembrar, Leandro Narloch não é um historiador, mas um jornalista. Ele não foi às fontes originais obter informações novas, apenas exibiu informações já sabidas mas que vinham sendo sistematicamente omitidas pelos cultores do politicamente correto, a fim de apresentar uma nova versão. Falsear a História é fácil porque não é preciso mentir, basta omitir. Enfatizar aqui e minimizar ali. Mas já é tempo de se fazer uma revisão dos guias politicamente incorretos. Controvérsias não faltam, mas vou me ater aos aspectos que considero mais triunfantes dos guias.

O primeiro deles, sem dúvida, foi acabar com a imagem romântica que se tinha dos índios, vistos como um povo pacífico que vivia em comunhão com a natureza, procurando conservar a floresta que os colonizadores destruíram. Para começar, os índios não são um povo, mas vários povos, que não falavam as mesmas línguas nem eram exatamente amigos uns dos outros. Recentes descobertas arqueológicas, já comentadas aqui por mim, revelam que havia grandes aldeias no feitio de cidades, roçados e pomares em diversas regiões. Então, quinhentos anos atrás não devia haver muito mais floresta nativa do que há hoje. É claro que os índios também destruíam a floresta. Não foi devidamente explicado porque essas grandes aldeias desapareceram, mas a arqueologia também revelou que diversas culturas tiveram períodos de expansão e declínio antes da chegada dos portugueses, certamente o resultado de guerras e condições naturais adversas. Os índios não precisavam dos colonos para exterminar os índios, sabiam fazê-lo eles próprios. O que não deve causar surpresa, pois nunca foram vítimas patéticas, mas povos com interesses próprios, que como todos os outros, também jogaram o Jogo da Civilização. Às vezes ganharam, outras vezes perderam.
Bem oportuno foi o desmentido da versão da Guerra do Paraguai lançada pela conhecida obra de JJ Chiavenatto: Guerra do Paraguai, Genocídio Americano, que vinha sendo adotada como versão oficial nas escolas, e contava a história de uma guerra onde Brasil e Argentina foram fantoches dos imperialistas britânicos, interessados em liquidar o Paraguai, que supostamente dispunha de um modelo desenvolvimentista independente das grandes potências. Na verdade, essa versão já havia sido derrocada pela excelente obra Maldita Guerra, de Francisco Doratioto, essa sim completa e com sólida base documental e metodológica. Os ingleses não tinham interesse em destruir o Paraguai, e no início do conflito, quem tinha relações cortadas com o Império Britânico era o Brasil, consequência da Questão Christie. Ao contrário, os ingleses tinham aceito a encomenda de navios de primeira linha por parte do Paraguai, que acabaram não sendo entregues porque a guerra eclodiu antes. Ficou mostrado que Chiavenatto queria fazer um paralelo entre o Brasil, o Paraguai e a Inglaterra do século 19 com o Brasil, Cuba e os EUA do século 20, sendo os EUA o modelo da potência imperialista que foi a Inglaterra, o Brasil o modelo do estado subalterno aos imperialistas, e o Paraguai de López uma espécie de Cuba onde toda a população era alfabetizada, não havia propriedade privada e todos trabalhavam para o Estado. Não era bem assim. No Paraguai da época, as terras pertenciam ao Estado, mas o Estado pertencia aos lopistas.

Foi também oportuna a revisão do retrato estabelecido de alguns heróis nacionais. Não que o propósito fosse denegri-los, a intenção era mostrar como certas versões originadas de boatos ou pura ficção acabaram se tornando verdade de tão repetidas, ou por serem sedutoras. Todos conhecem o artista Aleijadinho, que sofria de grave enfermidade que lhe fez cair os dedos das mãos, e executava suas obras com as ferramentas amarradas ao que sobrou de seus membros. O que muitos não sabem é que quase todas as informações que se tem sobre ele provem de um livreto escrito décadas após sua morte, e as fontes do autor são desconhecidas.

As escassas provas materiais da existência de Aleijadinho, além das obras atribuídas a ele, são recibos assinados pelo artista, o que prova que ele tinha dedos nas mãos que lhe permitiam, ao menos, segurar uma pena. A lenda de que ele trabalhava com as ferramentas atadas às mãos doentes sempre me despertou certa desconfiança. Ainda que fosse possível atar as ferramentas ao que lhe sobrara das mãos, ele por certo não suportaria a dor de manusea-las. Convém lembrar, as madeiras nobres utilizadas em estatutária são bastante duras, e entalhá-las é tarefa desgastante até para quem é sadio. A realidade deve ter sido menos fantástica. Lembrou o autor dos guias, a arte barroca é um trabalho essencialmente coletivo, e lembro eu, o artista apelidado de aleijadinho era bem conceituado, e é plausível supor que dispunha de um ateliê com bom número de auxiliares, e ao final da vida, já doente, ele se limitasse a supervisionar os trabalhos.

Parabenizo o autor pela coragem de mexer com um dos heróis mais unânimes de nossa história, o inventor Santos Dumont. Mais uma vez, o propósito não era denegri-lo, apenas chamar a atenção para um mal entendido que vem desde o início do século passado: não foi ele o inventor do avião. Os irmãos Wright voaram primeiro.

A polêmica é antiga, mas desde algum tempo eu já havia dado ganho de causa os americanos. Não vou entrar aqui no mérito de questões técnicas do voo, como o uso ou não de uma catapulta para fazer decolar. Chamo a atenção para um aspecto mais óbvio: foi a configuração da aeronave dos irmãos Wright que prevaleceu. E essa configuração era totalmente diferente daquela do 14-bis.
Quase todo mundo (eu inclusive) quando vê uma foto do 14-bis imagina-o voando com a hélice na frente e o leme atrás. Mas era o contrário. A hélice ficava atrás, junto com o piloto e as asas, e o leme (ou profundor) ficava na frente. Essa configuração, batizada de canard (pato, em francês) é totalmente estranha nos dias atuais, e por um bom motivo: nunca foi encontrada uma solução de estabilidade para ela. Quando tentava fazer curvas, o 14-bis facilmente perdia a sustentação, e acabou destruído em um acidente. Santos Dumont construiu outra aeronave, batizada número 15, com uma configuração semelhante à do 14-bis, que acabou destruída em um acidente também muito semelhante. Desde então a configuração canard nunca mais foi usada por nenhum construtor de aviões, nem mesmo pelo próprio Santos Dumont. Já a aeronave dos irmãos Wright lembra em tudo um avião atual: motores montados sobre as asas, piloto na frente, leme e profundor atrás. Todos os aviões atuais utilizam esta configuração.

Fora do Brasil, Santos Dumont nunca foi considerado o inventor do avião. Na realidade, ele levava mais fé em balões dirigíveis, no que aliás não estava de todo errado, pois até o acidente com o Hindenburg, os dirigíveis foram os mais utilizados em viagens transoceânicas. Isso fica implícito até no nome que deu a seu invento, 14-bis, denotando que no projeto original a aeronave seria apenas um complemento a seu balão número 14. Só depois de muita insistência de amigos ele decidiu dar meios a sua aeronave para decolar por conta própria. A pessoa de Santos Dumont é fascinante e paradoxalmente pouca conhecida de brasileiros. Eu recomendo a leitura de Asas da Loucura, escrita por um americano. O inventor foi, acima de tudo, um excêntrico. Não almejava ganhar dinheiro, mas trabalhava apenas por prazer, e conforme sua inspiração, podia tanto fazer inventos úteis quanto bizarrices estilo Professor Pardal. Foi um grande homem, mas não foi o inventor do avião.

Também nesse quesito de figura histórica construída por obras literárias ao invés de fatos, eu poderia citar Dona Beja, que todos conhecem, mas poucos sabem que a história que é contada em novelas baseia-se em um romance escrito muito depois de sua morte. A personagem existiu, mas quase tudo que se diz sobre ela é lendário. O mesmo acontece com Xica da Silva. O caso é que há heróis que surgem para satisfazer uma demanda do público, e personagens históricos são escalados para este papel. Os guias citam também Lampião, até hoje herói popular, mas que na realidade foi um bandido cruel, amigo de vários coronéis do sertão e que não tinha nenhum apreço pelo zé-povinho.

Os guias são tendenciosos e possuem falhas, mas a discussão suscitada por eles é sempre bem vinda.

domingo, 19 de novembro de 2017

Multiculturalismo: o Brasil e a Catalunha

Causou curiosidade e certa perplexidade por aqui a notícia da declaração da independência da Catalunha. Não que tenhamos, é óbvio, alguma coisa a ver com o ocorrido, que de resto não teve efeitos práticos, mas foi muito significativo no contexto presente de rejeição ao globalismo, sendo eventos recentes o Brexit e a eleição de Trump. Faz pensar. No senso comum sul-americano, a Europa é um continente de estados-nação estabelecidos e estáveis, onde termos como Catalunha, Galícia, Beira, Gales, Silésia, Tirol, Valônia possuem apenas um significado geográfico e histórico, e causa surpresa saber que algumas dessas regiões se veem como países independentes. Isso parece contraditório: movimentos separatistas seriam mais plausíveis em países como o nosso, muito mais recentes e instáveis, com muito maior diversidade regional, e menos densidade populacional com regiões isoladas. Por que não é assim?

É uma oportunidade de rever a História. Globalismo e multiculturalismo são daqueles conceitos que de tão usados na época atual, acabaram banalizados: todos os repetem, mas poucos sabem defini-los. Diz-se que o Brasil é um país multicultural, e fundamenta-se essa assertiva em nossa diversidade étnica e cultural. Mas é preciso discernir até onde vai de fato essa nossa suposta diversidade.

A primeira coisa que precisa ser dita é que a nossa diversidade étnica é, no atacado, uma diversidade racial. Não é a mesma coisa. Uma etnia significa um povo que tem identidade própria, língua e história próprias. Computam-se no Brasil cerca de 400 línguas diferentes faladas por grupos nativos isolados, mas o número total de nativos brasileiros não chega a 1% da população total do país. O restante exibe apenas a nossa conhecida diversidade racial, com pouca diferença cultural, exceto algumas idiossincrasias de região para região. É significativo que apesar de todo o isolamento regional e do analfabetismo que cem anos atrás chegava a 80% da população, o português brasileiro não se fracionou em dialetos mutuamente ininteligíveis.

Bem diferente é o quadro na Europa, onde regiões relativamente pequenas e com alta densidade populacional exibem conjuntos de grupos étnicos antigos, que preservam sua língua ancestral, embora todos falem a língua oficial do país, e são muito ciosos de sua identidade. Isso acontece porque esses povos, séculos atrás, eram de fato independentes. Diferente da evolução histórica do Brasil, onde nossa diversidade étnica foi lançada em um caldeirão de mistura, que sempre girando não permitiu  a fixação de grupos muito distintos. Para começar, os povoadores aqui estabelecidos raramente dispuseram de alguma autonomia política que os permitisse preservar língua e práticas ancestrais, e em muitas ocasiões, foram abertamente proibidos de fazê-lo. Nosso multiculturalismo é basicamente uma mistura muito indistinta, onde se percebe aqui e ali vestígios do passado.

O que não impede que muitos usem a retórica para amplificar nossa diversidade, muitas vezes com propósitos inconfessáveis ligados ao globalismo. O exemplo mais marcante é a exigência de que os brasileiros de pele escura se identifiquem como "afro-brasileiros", como se tivessem alguma ligação menos que remota com a África de origem. Mas há exemplos mais maliciosos, como a construção ideológica de "nações indígenas" que supostamente deveriam ter autonomia, tal como tem a Catalunha e o País Basco na Espanha. Já foi amplamente denunciado que essas nações são, na verdade, constituídas de reminiscências de várias tribos sem relação entre si, e obviamente incapazes de autogoverno, ficariam sob a tutela internacional, como querem os globalistas. Há também exemplos mais caseiros, como os que veem as favelas das grandes cidades como enclaves étnicos tal como existem na Europa, e clamam que as comunidades ali residentes teriam uma cultura própria que deveria ser respeitada. É nesse contexto que o baile funk é considerado "resistência cultural" do povo da periferia, esquecido de que se trata de uma importação dos guetos norte-americanos, sem raízes em nossa cultura popular.

A separação da Catalunha (ou da Escócia, da Valônia ou do que seja) é fenômeno restrito à Europa. Por aqui, movimentos separatistas, como os que querem um sul independente ou uma amazônia pertencente aos povos indígenas têm um aspecto caricato. Felizmente.

domingo, 12 de novembro de 2017

Brasil x Argentina: eu sou você amanhã?

Chamamos aos argentinos de "los hermanos" com um pingo de ironia. O paralelismo entre os acontecimentos no Brasil e na Argentina é um fenômeno histórico curioso, e por vezes embaraçoso. Certos ciclos por que um país atravessa parecem se repetir no outro, como se fosse uma imitação. Foi assim com o peronismo, que aqui se chamou getulismo. Mais tarde o casal Nestor e Cristina Kirshner seria mimetizado pelo "casal" Lula e Dilma, e quando tanto os primeiros quanto os segundos saíram do governo, pode-se afirmar que Michel Temer é o nosso Macri. Essa última comparação torna-se instigante agora que parece que Macri está obtendo uma recuperação econômica consistente e obtendo apoio popular para seu projeto, em substituição ao nacional-populismo, então Temer devia fazer o mesmo aqui.

Mas até onde são procedentes esses paralelos?

Não gostamos de ser considerados imitadores dos argentinos, que não sem motivo nos chamam de macaquitos. A rivalidade entre brasileiros e argentinos é evidente, mas também folclórica, pois é uma rivalidade pueril, muito canalizada para as disputas futebolísticas. É outra coisa quando a rivalidade surge em decorrência de um passado de guerras e confrontos. Sabemos que, no fundo, não somos muito diferentes um do outro. Mas até onde vai essa semelhança, afinal?

A comparação entre Perón e Vargas, eu considero uma simplificação grosseira. Há um paralelismo óbvio quanto ao contexto histórico, político e econômico em que ambos surgiram: fim do domínio das oligarquias rurais, urbanização, transição de uma economia agrária para industrial, centralismo e dirigismo, influências do fascismo europeu e do comunismo. Mas quanto ao estilo pessoal, não há muito em comum além de ambos terem sido autoritários. Perón foi um populista assumido que se apoiava em uma rede de sindicatos atrelados ao governo. Vargas foi acusado de ser um populista e de querer montar uma "república sindicalista" nos moldes peronistas. Décadas depois, a comparação parece estar mais calcada naquilo que Vargas foi acusado de ser, do que naquilo que ele efetivamente foi.

Na economia, também há paralelismo. Nos anos oitenta, o plano austral lá e o plano cruzado aqui, ambos fracassados e terminados em hiperinflação. Depois o Plano Cavallo lá e o Plano Real aqui, bem sucedidos inicialmente. Depois a comparação diverge. O Plano Cavallo terminou em crise, e a inflação voltou sob os Kirshner, ao passo que aqui o Plano Real, bem ou mal, sobreviveu e foi mantido pelo governo que sucedeu seu criador (ou pelo menos, esse governo não conseguiu se livrar dele).

A volta do nacional-populismo no início do século 21 também se enquadra em um contexto político e econômico similar por que ambos os países passaram: o esgotamento do ciclo dito neoliberal, que acabou com a inflação; o saudosismo do estado grande, o boom das commodities que permitiu medidas de alcance social. Mas há uma diferença importante: na Argentina, a herança do peronismo foi encampada por um partido político sólido e unido, enquanto que aqui os partidos trabalhistas se fragmentaram e vários se proclamam herdeiros do varguismo. Os Kirshner, na Argentina, adotaram medidas discricionárias que o PT nunca teve força para adotar aqui. Por outro lado, a queda do kirshnerismo se deu por uma eleição regular, enquanto aqui a queda do petismo se deu por impedimento da presidente.

Mas voltando à pergunta feita de início, Temer vai repetir o sucesso que Macri está tendo no momento atual, fazendo seu sucessor dentro de um projeto consistente e oposto ao nacional-estatismo? Primeiro de tudo é preciso lembrar que Temer é um herdeiro do governo anterior, do qual foi vice-presidente. Nunca foi eleito, nem tem uma base parlamentar sólida. As ideias estão no ar, mas falta um líder que as concatene. Se teremos um Macri brasileiro, este só vai surgir na eleição de 2018. Ou então teremos que escolher entre Lula e Bolsonaro.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Nova Luz Sobre o Brasil Pré-cabralino

Terminei de ler o livro 1499 O Brasil Antes de Cabral, de Reinaldo José Lopes. Em estilo jornalístico, leitura leve e até divertida, própria para o grande público, a obra dá conta de recentes descobertas que vem mostrar que os nativos brasileiros não eram tão primitivos nem tão parados no tempo quanto se estabeleceu no senso comum e foi endossado por professores nas escolas - ao contrário, nossos índios moravam em aldeias do tamanho de cidades, cercadas de muros e interligadas por estradas, praticavam uma agricultura evoluída e tinham redes de comércio. O livro deixa muitas revelações e algumas indagações.

A ideia de índios "diferentes", na verdade, não é tão estranha assim do público. Todos conhecem o nome do rio Amazonas, tirado da lendária tribo de mulheres guerreiras da antiguidade clássica, e segundo consta, chamado assim porque um explorador espanhol narrou haver sofrido ataque de mulheres guerreiras na região. O nome pegou, mas as tais mulheres nunca foram vistas novamente. Afirmou-se que o explorador teria tomado por mulheres homens com cabelos longos, comuns nas tribos da região. Mas outros exploradores menos imaginosos fizeram narrativas bem mais minuciosas, contudo igualmente inacreditáveis. Falaram de aldeias tão grandes que podiam ser avistadas por horas enquanto os barcos desciam o rio, ligadas por estradas largas e planas, paliçadas, roçados e muito mais.

Tal como as mulheres guerreiras, ninguém nunca mais viu tal coisa, e essas narrativas passaram ao terreno das lendas, até que recentes descobertas arqueológicas apontaram vestígios das tais aldeias gigantes e seus planos urbanísticos. Muito antes o povo da região já se referia à "terra preta dos índios", herança de antigos roçados sustentados por fertilizantes naturais. Também eram conhecidos certos "pomares naturais" na floresta, com grande concentração de uma única espécie de árvore, que dificilmente poderiam ter surgido por obra do acaso.

De fato, a pré-história brasileira é muito pouco conhecida e certos conceitos estabelecidos já sofreram reviravolta no passado, a começar pelo própria antiguidade do povoamento da América. O autor contou a história de Luzia, nome dado a um crânio feminino de características africanas e melanésias encontrado em Minas Gerais, e posteriormente datado de 15 mil anos. As características do crânio deram origem a especulações de que os primeiros habitantes dessas terras não teriam sido siberianos que atravessaram o estreito de Behring como sempre se supôs, mas habitantes do Pacífico sul que teriam de alguma forma cruzado os mares. A discussão continua aberta, mas a mim parece que a explicação é mais simples: todas as raças humanas se originaram da África, há cerca de cinquenta mil anos, e só lentamente adquiriram as características atuais à medida em que as populações migravam e se adaptavam ao clima das regiões onde se estabeleciam. Então, é possível que os siberianos de 15 mil anos atrás não fossem muito diferentes dos atuais africanos.

As revelações do autor tocam certos pontos sensíveis de nosso sentimento identitário. Ao longo de nossa história, a herança indígena tem sido alternadamente desprezada e exaltada. Há um sentimento de inferioridade em relação ao colono europeu, e mesmo às outras etnias nativas da América, bem mais evoluídas. Outros, porém, têm usado o índio brasileiro para moldar mitos fundadores que estabeleçam uma afinidade do brasileiro com sua terra ancestral, e nesse afã o índio é romantizado. Exemplos não faltam. Para uns, o índio é corajoso e varonil; para outros, é uma vítima patética, massacrado e exterminado pelo colonizador. Nesse ponto, e obra de Reinaldo Lopes é oportuna para mostrar que o índio verdadeiro não é uma coisa nem outra, mas assim como faz muitas revelações, também deixa algumas indagações.

A principal delas é: se os índios que habitavam o interior do país há apenas 500 anos atrás eram tão evoluídos, por que poucos séculos depois só restavam vestígios de suas enormes aldeias?
Sabe-se que muitas tribos do litoral foram dizimadas e expulsas pelo colonizador. Mas não há relatos de bandeirantes travando combates com exércitos de tribos populosas que habitavam verdadeiras cidades no interior de Goiás e Mato Grosso. Quando eles chegaram a essa região, os povos que encontraram habitavam pequenas aldeias e não eram mais evoluídos que os do litoral. Seja lá o que foi que aconteceu, foi antes deste momento. O autor não chega a dar uma explicação completa, e acaba levantando mais indagações. Começa por apontar uma dificuldade comum dos povos nativos da América: o conhecido Princípio de Ana Karênina, popularizado por Jared Diamond.

O princípio refere-se às dificuldades encontradas pelos domesticadores de animais e plantas, nos primórdios da Revolução Agrícola. Escreveu Tolstói em seu romance, todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz, é infeliz a seu modo. Fazendo uma analogia, Jared Diamond lembra que todas as espécies domesticáveis se parecem, posto que compartilham um conjunto mínimo de características em comum, mas cada espécie indomesticável apresenta uma não-conformidade distinta: o animal pode ter um temperamento indócil, não se reproduzir em cativeiro, ser difícil de alimentar, ser territorialista e não tolerar viver em confinamento. Nesse quesito, o desfavor do continente americano em comparação aos outros continentes é evidente. Aqui se domesticou a mandioca e o pato-bravo. A gravura de Debret que ilustra a capa do livro mostra o que parece ser um cachorro-vinagre, espécie da fauna brasileira, mas além disso muito pouco foi domesticado pelos nativos brasileiros. Mesmo na América andina, muito mais evoluída, poucas espécies foram domesticadas. Além do milho e da batata, de animais apenas a lhama, a alpaca e o porquinho-da-índia foram domesticados. Faltaram sobretudo grandes mamíferos, que além de fonte de alimento pudessem servir como animais de carga. Por aí não se admira que os maias, tão evoluídos, não conhecessem a roda (ou melhor, conheciam-na, mas só a utilizavam em brinquedos).

Por que tanto desfavor? O autor lembra que até Darwin, quando passou por aqui, espantou-se da pobreza do continente em termos de animais de grande porte, em comparação com a África equatorial, que tem um panorama físico semelhante. O naturalista, que na ocasião coletava fósseis, também admirou-se da variedade e do porte dos mamíferos que aqui viveram até o fim da última Era Glacial, com tatus do tamanho de um boi e preguiças do tamanho de um elefante.

Por que todos desapareceram? Houve extinção em massa também no norte, desapareceram mastodontes e rinocerontes da Europa, mas para a felicidade nossa sobraram os ancestrais dos atuais bois e cavalos. Aqui nem os cavalos sobraram, embora a espécie, ironicamente, tenha se originado da América. Não há ainda uma explicação, mas sabe-se que os primitivos habitantes do continente tiveram pouco papel nessa extinção, pois quando chegaram aqui há dez ou quinze mil anos atrás, a mega-fauna já estava quase toda extinta (diferente da Austrália, povoada desde 40 mil anos atrás, onde os nativos tiveram um papel importante ao exterminar a mega-fauna local).

O autor aventa outra hipótese para explicar a desaparição das grandes aldeias do Brasil central: o que chamou de um telefone-sem-fio das doenças transmissíveis. É bem conhecido o efeito das doenças trazidas pelo colonizador sobre os nativos que tiveram contato com eles, produzindo epidemias que dizimaram aldeias inteiras. Mas esse contágio pode ter acontecido também longe das vistas dos colonos, pois os índios possuíam estradas e rotas comerciais por onde circulavam os infectados. Então, quando os bandeirantes chegaram ao país central, já encontraram as grandes aldeias exterminadas. É uma hipótese, mas não se pode provar nem que sim nem que não. Mas o autor também citou evidências arqueológicas de que o povoamento da Ilha de Marajó (uma das áreas mais evoluídas da região amazônica, célebre por sua cerâmica) apresentou vários períodos de crescimento e declínio, e isso antes de 1500 e da chegada dos colonos e suas doenças infecciosas. Penso eu, é provável que as instabilidades e incertezas próprias do limiar da Revolução Agrícola tenham sido as responsáveis pelo declínio das aldeias que um dia foram cidades. Numerosos exemplos de cidades inteiras encontradas por arqueólogos engolidas pela selva são o testemunho de que povos que um dia foram evoluídos, regrediram a um estágio anterior quando alterações no ambiente inviabilizaram o sustento de tais civilizações urbanas.

O livro de Reinaldo Lopes é bem-vindo para substituir crenças equivocadas por evidência científica.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O Fenômeno Bolsonaro

Podemos não simpatizar com determinadas figuras da política, mas chega um ponto que não podemos mais ignorá-las. É o caso de Jair Bolsonaro. Até pouco tempo mais um ítem do panteão folclórico, comparado ao já falecido Enéas Carneiro, agora o candidato com segunda maior intenção de votos. Devemos então encarar seriamente a possibilidade dele ser nosso novo presidente, e analisar possíveis consequências.

É nesse momento que devemos recorrer à História para explicar o presente. Se observarmos bem, é recorrente na nossa política o fenômeno de personagens surgidos do nada com um discurso bombástico, tendo uma carreira meteórica e chegando à presidência bem jovens, só para logo em seguida desaparecerem tão rapidamente quanto surgiram. O exemplo mais emblemático é o de Jânio Quadros. Depois veio Collor de Mello, esse parecendo mais uma caricatura do primeiro. E agora Bolsonaro.

De comum, todos os três brandiram um discurso moralista que em outras circunstâncias seria considerado lugar-comum, mas que na ocasião causou considerável impacto e empolgou muita gente. São por isso considerados protagonistas de uma espécie de "populismo de direita", definição algo preconceituosa porque supõe que o populismo seria exclusivo da esquerda, o que não é verdade. Mas o sucesso que tiveram deixa claro que preencheram um vácuo, atendendo às expectativas de multidões que naquele momento não tinham quem expressasse suas ideias. O rápido desgaste e a queda em seguida também deixa claro que apesar de todas as esperanças que despertaram, seus projetos não eram exequíveis e eles próprios não tinham o mínimo jeito para a coisa, não passavam de corpos estranhos que foram expelidos pelo organismo.

Jair Bolsonaro terá trajetória semelhante? Por enquanto, tudo o que ouvimos dele são frases de efeito, insultos e provocações contra grupos minoritários também barulhentos. Isso chama bastante a atenção, mas não se materializa em um projeto político. Assustou-me sobretudo haver ele declarado em uma entrevista que não entende de economia. O que fará ele se for presidente? É um declarado apologista do regime militar de 1964, mas o modelo econômico nacional-estatista praticado por este regime já está desde muito esgotado, e ironicamente foi encampado pela esquerda petista que Bolsonaro combate.

Todo populista quando chega ao poder encontra-se diante de uma realidade cabal: vai ter que governar. Os discursos que faziam sucesso nos palanques não funcionam nos gabinetes. Penso que haverá duas possibilidades: a primeira, Bolsonaro se tornará uma caricatura de Donald Trump, de tanto em tanto soltando bravatas, e só. Sem uma liderança eficaz, a economia e a política logo se degradarão, ele perderá apoio e será expelido tal como seus antecessores. Na segunda hipótese, ele abandonará o discurso extremista, fará coligações e se tornará uma figura de proa, deixando a tarefa de governar para os outros, já que ele não entende de economia e ao que parece também não tem paciência para a política.

Mas isso só saberemos em 2018.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A Culpa é das Elites

Nas pretensas análises sobre o quadro social e político brasileiro, umas das palavras mais repetidas é "a elite", geralmente sendo depreciada e responsabilizada por todas as mazelas nacionais. O termo pertence àquela classe de palavras que, de tão repetidas, ganham vida própria: desligadas de seu contexto original, dispensam uma definição e são passadas adiante sem exame, até que um dia alguém se lembra de perguntar qual é, afinal, o seu significado, e cada um dá uma versão diferente.

Recentemente deparei-me com um artigo que me chamou a atenção. Intitulava-se "A Elite Brasileira Existe?" Embora pareça uma injunção ociosa, o autor gastou bastante teclado para responde-la, o que deixa claro que a questão despertava-lhe algum incômodo. Perdi o link para a página, mas o artigo dizia mais ou menos assim: a elite brasileira não possui o mesmo orgulho patriótico e o senso de responsabilidade das elites dos outros países. O autor conclui que isso se deve à elite brasileira ser uma elite somente de dinheiro, enquanto as outras elites demonstram brilhantismo em áreas diversas.

Conforme eu já comentei aqui mais de uma vez, no imaginário dos usuais detratores da elite nacional, o que chamam de elite nada mais é do que aquilo que os psicólogos chamam um totem, uma entidade sobrenatural que encarna determinados atributos. Todos sabem como a elite é, mas ninguém sabe dizer exatamente o que a elite é, exceto que seus integrantes são sempre os outros. A pergunta A Elite Brasileira Existe? revela o desconforto do autor com a imaterialidade deste conceito. É mesmo um ato falho, pelo qual o autor reconhece que a elite que ele tanto denigre, na verdade não existe. Um totem, como toda entidade sobrenatural, pode estar em toda parte, mas ao mesmo tempo não está em lugar nenhum, já que é incorpóreo.

É nessas horas que se deve voltar ao significado original das palavras. Elite, nos dicionários, significa o conjunto daqueles indivíduos que mais se destacam em uma área específica. Portanto, não se pode falar de elite como uma categoria pré-definida: há de fato várias elites, desde a elite dos melhores jogadores de futebol que são convocados para a seleção, até a elite dos melhores estudantes que passam para as universidades. E é claro, existe também a elite do dinheiro. Mas o autor lança uma falsa dicotomia ao opor a elite brasileira, que seria apenas de dinheiro, contra a elite dos outros países, que supostamente não seriam do dinheiro. É sabido, porém, que o talento costuma ser bem remunerado, de modo que todo aquele que se destaca em uma determinada área, quase sempre integra também uma elite do dinheiro. É um fenômeno que, em estatística, se chama um atrator. Portanto, ser membro de uma elite do dinheiro não é fator distintivo para a elite nacional nem para a elite de qualquer outro país, é apenas uma coisa normal.

Tampouco faz sentido que exista no Brasil uma elite má coexistindo com um povo bom. Por definição, a elite é sempre acima da média. Uma elite ruim nada mais é do que o sintoma de uma média pior ainda. De fato, lendo o discurso de ódio malhando as elites que ninguém sabe dizer exatamente quem são, fico com a impressão de que o sentimento da maioria dos comentaristas é apenas inveja e despeito.

A culpa é das elites? Ou a culpa é das estrelas? O conceito de culpa embute um julgamento. Mas de quem é a culpa do céu ser azul e do fogo ser amarelo?

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O Brasil antes do Brasil

Estou lendo um livro bem interessante, 1499 - O Brasil Antes de Cabral, de Reinaldo José Lopes, que dá uma visão dos povos indígenas pré-cabralinos bem mais ampla do que as informações que tínhamos até agora. Mas prefiro chama-lo de O Brasil Antes do Brasil, pois o país, assim conceituado como construção política, diplomática e cultural, passou a existir em 1500 após a chegada dos colonos. Até 1499 o que havia aqui não era o Brasil, mas a região geográfica habitada por povos distintos que não obedeciam a um mesmo governo nem tinham territórios delimitados por fronteiras.

Esses povos, contudo, eram bem mais antigos, numerosos e evoluídos que a imagem veiculada pelos livros de História até agora. Começando por Luzia, nome dado ao esqueleto mais antigo encontrado no país e datado de 12 mil A.C., o autor traça um painel surpreendente: populações sedentárias habitando aldeias do tamanho de cidades modernas, com elementos de urbanismo tais como ruas, praças e amuradas, ligadas por largas estradas e praticando uma agricultura diversificada com várias espécies nativas domesticadas, e inclusive usando fertilizantes naturais - a misteriosa terra preta dos índios. Essas tribos evoluídas ocupavam o centro do território brasileiro em um formato de cruz, da Ilha de Marajó ao sul de Mato Grosso, e do Amazonas ao Piauí.

É sabido que os primeiros exploradores do Amazonas fizeram relatos algo fantasiosos das tribos que encontraram, falando de grandes aldeias mas também de mulheres guerreiras que emprestaram seu nome ao rio, e que nunca mais foram avistadas de novo. Acredita-se que seriam guerreiros de cabelo comprido tomados por mulheres. Mas o fato é que, quando a região foi criteriosamente explorada em épocas mais recentes, nem as mulheres guerreiras nem as portentosas aldeias foram encontradas - elas tiveram que esperar o trabalho de arqueólogos do século 20 para virem à luz.

O trabalho do autor é importante para superar a conceituação simplória que se fazia dos índios brasileiros até agora. Mas fica a pergunta no ar: se eles eram assim tão evoluídos até meros 500 anos atrás, porque desapareceram antes de qualquer contato significativo com o colonizador?

Essa pergunta o autor promete responder nos capítulos finais do livro, que lerei em breve. Mas até lá posso fazer alguma especulações. A impressão que eu tenho é que o estágio da Revolução Agrícola, a passagem de povos caçadores-coletores para povos agricultores, é um processo bem mais complicado e demorado do que parece. Isso porque é uma aposta sem volta: a criação de roçados e pastagens requer a destruição do ambiente natural onde se praticava a caça e a coleta. Trata-se de uma decisão sábia, contanto que dê certo.

Quando funciona, é bem sabido o que acontece: basta o trabalho de uma parcela da população para produzir alimentos para toda a comunidade. Desobrigadas de passar os dias percorrendo florestas à cata de frutas e caça, as pessoas passam a dispor de um enorme tempo vago que utilizam para fazer descobertas que darão origem a setores especializados: surgem os artesãos, os tecelões, os oleiros, os pedreiros, os ferreiros, os curandeiros, os guerreiros. A população cresce e já não pode deslocar-se, tem que ficar próximo de estão as plantações e as criações: surgem as cidades. A sociedade torna-se complexa e desigual, é o que chamamos, latu sensu, de civilização.

Mas e se não der certo? A domesticação da natureza, feita por povos que não possuem qualquer noção do que estão fazendo, pode redundar em vários tipos de catástrofe ecológica. O planeta está repleto de ruínas de templos, pirâmides e imensas cidades de pedra perdidas na floresta, testemunho de civilizações que foram arrojadas, mas que por algum motivo não puderam mais manter aquele modo de vida, tiveram que abandonar suas cidades e retornar a um estágio evolutivo anterior - os maias da América Central são um exemplo. Mas também há exemplos de povos que permaneceram por um tempo indefinido no limiar da revolução agrícola, nem lá nem cá, como os nativos norte-americanos, que tinham plantações de milho mas não podiam ficar o ano inteiro cuidando delas, pois tinham que migrar atrás dos bisões, que eram bem mais importantes para seu modo de vida.

É possível que coisa semelhante tenha ocorrido com as antigas tribos evoluídas daqui. Importante lembrar que a revolução agrícola aumenta a oferta de alimentos em quantidade, mas diminui em diversidade, posto que nem todas as espécies podem ser domesticadas - várias fontes de alimento que até eram relativamente abundantes na natureza têm que ser descartadas. Basicamente, a revolução agrícola só vinga quando há um cereal básico para suprir as necessidades energéticas da população, mais um conjunto mínimo de outros nutrientes para manter a saúde. No Oriente Médio e depois na Europa, esse cereal básico foi o trigo; na Ásia foi o arroz, e na América Central foi o milho. Os demais nutrientes são hortifrútis até hoje encontrados nas feiras livres, mas nenhum deles nativo do Brasil. Qual seria a alimentação básica de nossos índios agricultores?

Aguardo a leitura dos capítulos finais.