sábado, 12 de agosto de 2017

A História só vai recomeçar em 2018

Tenho a sensação de que a História parou, e este hiato só vai ter fim em 2018 com a eleição do novo presidente. Com os últimos acontecimentos, não resta dúvida: o país está sem governo, sem projetos, sem perspectivas, um imenso vazio de poder. Michel Temer, que nunca deixou de ser um interino, pode ter escapado por hora, mas tornou-se refém dos congressistas que lhe salvaram o pescoço. É o presidente mais inexpressivo que este país já teve: se um dia sonhou em ser um Itamar, nem um Sarney conseguiu ser...

Com este quadro, é perda de tempo falar do presente, pois a História só vai recomeçar em 2018, com o novo presidente, seja ele qual for. E está se desenhando no horizonte uma volta do PT ao poder, com Lula ou sem Lula, mas de preferência com Lula, o candidato com maior intenção de votos até agora. Mas se o PT vencer, será praticamente uma vitória por WO. Tomo emprestado o termo do futebol, que dá a vitória a uma equipe se o adversário não comparece. Isso em razão da total ausência de qualquer outra opção minimamente atrativa de qualquer outro partido.

Se o PT vencer em 2018, será graças à omissão de seus adversários, e não por haver superado os erros que o levaram a ser tirado do poder em 2016. De fato, nos anos em que o PT esteve no governo, à exceção de tipos como Bolsonaro, ninguém se arriscou a emitir um discurso abertamente anti-petista ou apresentar um projeto diametralmente oposto ao do PT, julgando que esta seria a fórmula certa de perder a eleição. O PMDB desde os anos 90 desistiu de ter candidato próprio e preferiu as composições que lhe garantissem cargos, e apenas cargos. O PSDB, o único rival à altura do PT, ao invés de bater de frente, renegou seu passado e procurou desvencilhar-se da sombra de FHC. É claro que ninguém acreditou nesse mea culpa fajuto, nem ninguém vai querer a cópia se pode ter o original. Agora é tarde para o PSDB criar um candidato que tenha um perfil minimamente alternativo ao projeto petista. Pode apenas relançar os candidatos que já foram derrotados antes e serão derrotados de novo.

Mas o PT tampouco fez um mea culpa que não fosse fajuto. E mais ainda, essa guinada inesperada que o reconduza ao poder pode dar vazão a um clima de euforia e desforra, que vai reforçar a disposição de repetir os mesmos erros que foram cometidos desde o primeiro mandato de Dilma. Militantes imaginosos vão enxergar em um Lula envelhecido e desgastado, um Lula renascido e vingador, que vai finalmente levar a cabo os projetos sonhados desde os velhos tempos, aquele besteirol ideológico que o próprio Lula descartou no lixo em 2002. Aí periga a história se repetir: depois da euforia inicial, a crise se instala, não haverá mais dinheiro para projetos sociais, a popularidade do governo cai e a oposição se enche de moral. E a população, decepcionada e julgando-se mais uma vez traída, pode correr para os braços dos radicais de direita. O PT pode ter uma segunda chance, mas terceira chance é querer demais.

É preciso entender que o hipotético Lula de 2018 não será o mesmo Lula de 2002. Mesmo supondo que a frágil recuperação da economia obtida esse ano persista até o ano que vem, não será o mesmo cenário do primeiro mandato de Lula. Tampouco ele terá a mesma base de apoio que tinha naquela época. Restará a Lula fazer um governo pragmático, se quiser preservar sua biografia.

sábado, 29 de julho de 2017

A História se repete?

Nesse momento de compasso de espera, onde a História parece haver travado, fica a sensação de que estamos presos a um ciclo que se repete. Nos cometários, abundam comparações com episódios ocorridos no passado seguidos da observação: viram? Está acontecendo de novo igualzinho! Anda muito em voga comparar o momento atual com o ano de 1961, quando, conforme é sabido, foi instituído o parlamentarismo para tirar os poderes do recém-empossado João Goulart. Teria sido um "golpe parlamentar" análogo ao que ocorreu em 2016 com o impedimento de Dilma Rousseff. Outros analistas estendem a comparação até o ano de 1954, quando a fórmula para impedir Getúlio Vargas de governar foi levá-lo ao suicídio.

Esta injunção merece análise. Eu acho que a História se repete, sim. Mas não com o mesmo significado. A dinâmica dos fatos pode ser análoga, mas o contexto não. É então que se aplica o conhecido aforismo, a História se passa duas vezes, primeiro como tragédia, depois como farsa. O contexto histórico de agora não é igual ao de 1961. Naquele ano vivia-se o auge da guerra fria, a URSS era superpotência e a revolução cubana estava logo ali. A possibilidade de uma revolução violenta e de guerra civil por aqui não era uma fantasia, era algo palpável e temido pela população. Penso que a única semelhança concreta entre os eventos atuais e os de 1961 é a presença de oportunistas desejosos de tomar o poder, o que não é extraordinária, posto que esses oportunistas existem sempre e em todo o lugar. O ex-presidente Juscelino Kubitschek foi vítima deles, que tentaram impedir sua posse, mas também ele próprio foi um deles, pois deu apoio à derrubada de Goulart achando que assim teria campo livre para chegar à presidência em 1965. Mas a diferença mais crucial, além do clima político da guerra fria, foi o papel das forças armadas, que naquele tempo tinham ficha limpa, já que nunca antes haviam governado o país, e estavam aptas a se tornarem atores políticos. Muitos achavam que o governo militar, devotado ao país e não a partidos ou ideologias, seria ideal para livrar o país da corrupção e da irresponsabilidade dos políticos, levando-o ao desenvolvimento e à paz social.

No momento atual não há ator político para semelhante papel. O que se vê é um grande vazio onde brotam os oportunistas de sempre, aqui e ali algum arrivista radical, como o deputado Jair Bolsonaro, uma caricatura dos militares de 1964, ou o próprio Lula, que à falta de outra opção surge como o candidato com maior intenção de votos. O PT foi retirada do poder, mas simplesmente não se encontrou nada para substituí-lo, talvez porque de anos para cá todos os partidos tenham se dedicado a repetir o discurso petista. A direita brasileira foi liquidada pelos militares, que queriam governar sozinhos, então cassaram os líderes direitistas mais proeminentes e submeteram os restantes à liderança de políticos provincianos na vala comum da antiga ARENA. Não há mais uma direita assumida e intelectualmente relevante no país.

Mas tampouco existe a polarização que existia em 1961. A ojeriza que a direita tem hoje por Lula não pode ser comparada à ojeriza que a direita tinha em 1961 por Jango. Basta lembrar a vasta composição da base aliada dos governos petistas, integrada inclusive por Temer. No contexto de 1961 seria absurdo pensar em arranjo similar, com a UDN compondo-se com o PTB e o PCB. Lula já foi há muito metabolizado pelo organismo político brasileiro. A meu ver, o que esse organismo não consegue digerir não é o Lula ou Dilma, mas sim o PT, que é atualmente o único partido rigidamente organizado e disciplinado em um país onde os políticos agem para si e não para seu partido. Houve um genuíno temor de que a máquina petista enquadrasse a base aliada tal como enquadra seus próprios integrantes, e quando viram a enormidade de dinheiro desviada para a caixa do PT, enriquecendo-o e fortalecendo-o, aí eles se voltaram contra a corrupção...

O que vem em 2018 é uma loteria, pois de onde não há nada, tudo pode surgir. Lula pode até ser eleito, mas é tolice achar que um novo governo seu realizará todos os projetos revolucionários sonhados pela esquerda desde os anos 30. Se Jango não era Vargas, Lula não é Jango nem Vargas, Lula é Lula mesmo. Ele pode até fazer um bom governo, mas não poderá descartar as forças políticas conservadoras do país. Se em 2003, com uma base muito maior, ele não pôde descartá-las, muito menos agora, que sua base é bem menor.

Esperemos 2018 sem exagerar nas comparações com o passado. A História se repete, sim. Mas não com o mesmo significado.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Saudades de Médici

Nesse momento de grande desalento com a política, um fenômeno cada vez mais chama a minha atenção: o revisionismo em relação ao regime de 1964. E não são apenas os radicais de direita que têm levantado essa bandeira: também os esquerdistas têm resgatado supostas virtudes dos militares, como seu nacionalismo e seu projeto de construção de um país soberano. "Os militares odiavam os comunistas e amavam o país", escreveu certo comentarista. Esta postura particularmente me surpreende, pois sempre foi discurso padrão das esquerdas apontar os militares como entreguistas e subservientes às potências estrangeiras. Mas não é de hoje que as semelhanças entre o projeto nacional-estatista dos militares e o nacionalismo varguista têm sido apontadas - estas ficaram evidentes desde a época de Geisel, muito embora apontar isso fosse uma heresia e quem o fizesse arriscava-se a ser taxado de louco.

Sabemos que o saudosismo e a idealização dos tempos antigos é um sintoma comum do desencanto com a situação do presente, mas isso se torna perigoso quando radicais arrivistas podem se aproveitar da situação para chegar ao poder na esteira dessas fantasias. Temos muitos casos ao redor, com desastrosas consequências. O melhor remédio contra isso é separar a realidade do mito: o que foi, afinal, o período em que os militares estiveram no comando na nação? Em primeiro lugar é forçoso reconhecer que a ação dos militares não se limitava à repressão e ao combate à subversão: eles tinham efetivamente um projeto de país de longo prazo, e esse projeto se enquadrava nos moldes do nacional-estatismo lançado nos anos trinta. Iniciado por Vargas e continuado por Kubitchek, foram de fato os militares que levaram este modelo ao apogeu nos anos setenta e ao esgotamento nos anos oitenta, quando não por coincidência também se esgotou o regime de 1964.

Sob o enfoque econômico, portanto, não é difícil conceituar o que foi o regime militar brasileiro. Bem mais complicado é conceituá-lo do ponto de vista político. Eles se diziam democratas, mas pela forma como agiam evidentemente não eram democratas. Mas tampouco eram fascistas. Não havia culto à personalidade, nem organizações de massa, nem partido único, nem rituais exotéricos, nem desfiles embandeirados; os generais-presidentes alternavam-se monotonamente no poder sob um formato republicano fake; os atos discricionários eram catalogados com pudor bacharelesco: houve mais de vinte atos institucionais, embora os mais lembrados sejam o AI-1, o AI-2 e obviamente o AI-5. O regime se eternizava mas não se estabelecia, era mais como um estado-de-sítio prolongado, sem data para terminar mas sempre permeado por discursos que afirmavam ser a situação transitória, que o verdadeiro objetivo do regime era a democracia e que esta logo seria restabelecida. De minha parte, eu achava graça nas aulas de OSPB e Moral e Cívica, onde era enaltecida a democracia, a constituição e tudo o mais que era o exato oposto daquilo que o governo praticava.

Chama a atenção o pudor dos próceres do regime em se assumirem como ditadores. Eles queriam a ditadura, sem dúvida, mas tinham consciência de que ela era moralmente injustificável. É necessário um trabalho de psicólogo para desvendar esse paradoxo. A meu ver ele pode ser explicado pela formação positivista que marcou profundamente os militares brasileiros desde os fins do século 19, com sua descrença pela política parlamentar e sua convicção de que o bom governo deveria ser forte e racional - a "ditadura científica" propugnada pelos teóricos de Comte que os militares de 1964, consciente ou inconscientemente, não importa, tentaram realizar na prática pela instituição de um governo totalitário e tecnocrático. Foi a era dos "superministros", como Delfim e Simonsen, cuja liderança ultrapassava em muito o escopo original de suas pastas, preenchendo o vácuo deixado pela classe política que se retirou de cena. Certo ou errado, os militares acreditavam que esse modelo podia levar o país ao desenvolvimento, e uma vez alcançado esse objetivo, poderiam retornar à democracia e tirar o peso da consciência. Não notavam que esta lógica era autocontraditória: se a ditadura levava efetivamente o país ao desenvolvimento, então a ditadura era uma coisa boa e por que acabar com ela? Se a ditadura não conduzia o país ao desenvolvimento, então o objetivo não seria alcançado e de qualquer modo a ditadura ia durar indefinidamente.

Preso em suas contradições, o modelo esgotou-se nos anos oitenta, e os militares retiraram-se do poder sem deixar herdeiros políticos. Decorridos trinta anos, é tempo suficiente para que a memória seletiva filtre as coisas ruins do passado e a época possa ser idealizada pelas novas gerações descrentes do presente. Novos líderes, que não participaram efetivamente do regime, proclamam-se seus herdeiros. Algumas coisas boas existiram de fato. Havia muito mais otimismo para com o futuro, a economia crescia a altas taxas e havia mais empregos. Havia também menos crime nas ruas. Todos esses aspectos, entretanto, só podem ser entendidos plenamente se vistos sob uma perspectiva histórica, e não apenas à luz da época. Havia mais crescimento econômico e mais empregos, efetivamente. Mas tal como no tempo de Vargas e JK, o modelo econômico era baseado na hipoteca do futuro, ou como se diz, em vender o jantar para comprar o almoço. Isto era feito pelo endividamento externo, ou pelo endividamento interno via emissão de moeda. Ambos geram uma conta a ser paga pelas gerações futuras. E o futuro chegou.

Os impressionantes índices de crescimento econômico escondiam um desastre financeiro, que ficou evidente na chegada dos anos oitenta. Produzindo inflação, o governo cobria seus gastos mediante o confisco do poder aquisitivo dos cidadãos, como se fosse um imposto invisível que não precisava de aprovação do parlamento. Desde Vargas, passando por JK até Médici, foi desta maneira realizado um crescimento com pouca inserção social, já que os ganhos obtidos pelos trabalhadores com a abundância de empregos eram logo anulados pelo surto inflacionário que vinha em seguida. O país se tornou um dos mais desiguais do planeta, posição que mantem até hoje.

Outros saudosistas lembram que no tempo dos militares havia muito menos crime do que hoje. É verdade. Mas também é verdade que o crime vinha em ascenção no período, algo que não foi de todo notado porque as atenções estavam voltadas para a arena política. A segurança pública não era considerada questão de segurança nacional, e foi deixada a cargo das polícias militares estaduais. É certo que as polícias militares foram formalmente colocadas sob a supervisão do exército, mas esse arranjo tinha em mente utilizar as polícias militares como força de apoio no combate à guerrilha, e não utilizar o exército como força de apoio no combate ao crime comum. A segurança pública foi negligenciada e praticada com aquele misto de truculência e incompetência característico dos regimes autoritários, e deu no que deu.

Outro aspecto lembrado do período foi que havia menos corrupção, um dado embaraçoso para os que acham que apenas as ditaduras são corruptas. Mas a explicação é prosaica: não havia campanhas eleitorais custosas na época. Simples assim.

Pode-se ainda passar um bom tempo discutindo prós e contras da época, mas quanto a mim, tenho uma opinião definitiva: o regime de 1964 não pode ser imitado hoje porque lhe faltou uma identidade tangível que possa ser captada e emulada. Não havia textos escritos, ritos, símbolos, pais fundadores, séquito de devotos, milícias, clubes, mesmo seu partido de sustentação o era apenas pro forma. Foi uma ditadura não assumida, ou como definiu Elio Gaspari, uma ditadura envergonhada, que proclamava seu caráter provisório e prometia sair de cena tão logo cumprisse sua missão de levar o país ao desenvolvimento. Um regime sem rosto que hoje pode ser imaginado como se queira.

Espero que não usemos muita imaginação na próxima eleição.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

A História acontecendo: a cracolândia

Um fenômeno raro que eu gosto e assistir quando tenho oportunidade são os fatos se interpondo às teses. Isso é ver a História acontecendo em tempo real.

Semana passada houve uma ação na conhecida cracolândia, reduto de consumidores de crack em São Paulo, por iniciativa do prefeito Dória, considerada truculenta e que motivou numerosas críticas. O médico Dráuzio Varella comentou na Folha de São Paulo:

Todo o mundo tem que se convencer que não é possível acabar com a cracolândia. A cracolândia não é causa de nada, é consequência de uma ordem social que deixa à margem da sociedade uma massa de meninos e meninas nas periferias nas cidades brasileiras, sem qualquer oportunidade. Pararam de estudar com 13, 14 anos e acabam indo por este caminho.


Ou seja, o indivíduo vai se drogar cracolândia porque a sociedade não lhe deu oportunidade. Tivesse tido oportunidade, estaria andando pelas ruas muito limpo e direitinho, indo para o trabalho. Será?

Outros comentaristas, como nesse artigo de Aldo Fornazieri, repetiram chavões como "nazismo", "pogrom" e "elite branca", mais uma vez dando uma leitura de luta de classes à ocorrência. Mas na mesma semana dois acontecimentos bem inusitados vieram desmentir essas assertivas. O primeiro foi o encontro, em plena cracolândia, de ninguém menos que o cidadão Andreas von Richthofen, irmão da notória Suzane von Richthofen. Rapaz rico, inteligente, com doutorado em química, foi preso totalmente drogado, transtornado e maltrapilho em meio aos viciados. Outra notícia dá conta de que um certo Carlos Eduardo Albuquerque Maranhão, ex-aluno do conceituado Colégio Santo Inácio, criado no conceituado bairro do Jardim Botânico no Rio de Janeiro, é habitante da cracolândia. O que demonstra de forma cabal que o vício nada tem a ver com a condição social Ambos tiveram todas as oportunidades cuja falta, afirma Dráuzio Varella, é a causa da existência da cracolândia. São exceções? Sim, são. Mas de modo geral, ser rico no Brasil é uma exceção, seja a amostra colhida na cracolância ou em qualquer outro lugar.

Andreas von Richthofen e Carlos Eduardo se tornaram drogados em razão de graves problema psicológicos, no primeiro, quase que certamente, decorrentes da tragédia familiar, e o segundo de causas não conhecidos, mas amigos afirmaram que ele já se drogava desde os tempos do Santo Inácio. Nada a ver com condição social. Os outros drogados pobres provavelmente tiveram um histórico semelhante, e certamente menos recursos para trata-lo. Carlos Eduardo, aliás, faleceu dias depois de haver sido internado. Estaria vivo se houvesse sido internado à força bem antes desta semana?

De qualquer modo, os críticos viram como um grande fracasso a operação montada pelo prefeito Dória. Argumenta o artigo do já citado Aldo Fornazieri:

Na ação espetaculosa do prefeito contra a Cracolândia foram presos 38 traficantes e apreendidas algumas armas. O que consta é que nenhum desses presos é um grande traficante, um chefe do tráfico em São Paulo. Ou seja, os extraordinários gestores de São Paulo estão enxugando gelo.

Mais uma vez se incorre no erro de achar que o crime é como um organismo vivo em que, se cortando a cabeça, todo o resto vem abaixo. Como se os chefes do tráfico não pudessem ser prontamente substituídos. O crime, contudo, só pode ser combatido pela base, e não pelo topo. Cracolândia por cracolândia, esquina a esquina.


domingo, 28 de maio de 2017

Releituras da História: os cangaceiros

Diante as saída do mercado editorial das boas revistas de História que eu acompanhava desde muito - a História Viva, a revista de História da Biblioteca Nacional, e agora não encontro mais a da BBC - tenho comprado a Leituras da História. De qualidade bem sofrível se comparada às anteriores, mas tenho a impressão de que está melhorando. Gostei de uma matéria sobre Lampião e o fenômeno do banditismo rural.

Endossando as condições sociais que fizeram florescer o banditismo no nordeste, contudo a matéria não deixa de atacar certos mitos duradouros que o cangaço suscitou desde então. Vejo aí um bom sinal. A admiração que o bando de Lampião despertava no populacho é bem sabida, e literalmente cantada em verso e prosa no cordel. De fato, os cangaceiros tinham um senso de honorabilidade desconhecido em bandidos comuns, característica do fenômeno denominado banditismo social. O bandido social se acomoda ao quadro social vigente e é aceito pela população, tal como descrito por Eric Hobsbawm. Mas tão antiga e folclórica quanto as façanhas de Lampião são os atos de sadismo e crueldade perpetrados por ele, ressalva que Hobsbawm não deixou de fazer, a despeito de sua evidente simpatia pelos "bandidos sociais". A matéria de Leituras da História endossou o quanto Lampião estava longe de ser um herói: seu bando oprimia humildes trabalhadores e expulsava posseiros das terras dos coronéis aliados do rei do cangaço.

Isso vai na contramão de uma narrativa que tomou corpo desde os anos 60 - a apresentação de Lampião como um rebelde em luta contra as classes dominantes. Fazia parte do espírito a época, com a intelectualidade dominada por pensadores de esquerda, ávidos para criar um herói popular à feição de um Pancho Villa tupiniquim. Não existindo em nossa história personagem similar, o cangaceiro foi reciclado para este papel. Particularmente o cineasta Glauber Rocha foi responsável pela construção do mito. Mas bem observado de uma perspectiva distanciada no tempo, vê-se que não foi um fenômeno isolado: sobretudo desde o fracasso da luta armada, que não teve o apoio dos trabalhadores, os pensadores e produtores culturais de esquerda têm procurado angariar seu novo público entre os marginais, aqueles que Marx denominava o lumpen-proletariado, e com razão considerava imprestáveis como revolucionários, por seu caráter venal. E de fato, por toda a História os burgueses sempre compraram os lumpens por poucos tostões, inclusive para joga-los contra os trabalhadores.

Mas a substituição dos trabalhadores pelos marginais como público revolucionário tornou-se uma obsessão que só agora começa a ceder. Não se pode negar que faz um certo sentido: os bandidos são aguerridos, e quando querem, são até organizados - haja visto as facções criminosas que dominam as favelas. Só tem um problema: eles são capitalistas. Diria mais, hipercapitalistas, a julgar pelo consumismo e exibicionismo típicos dessa gente, e nesse aspecto distanciam-se irremediavelmente das massas tal como são idealizadas pelos intelectuais da esquerda. Enfim, desde o tempo de Lampião, se o zé povinho admirava o bandido, a recíproca não era verdadeira.

As leituras da História servem para dissolver os mitos.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Antecipando o 13 de maio

Todo ano, ao se aproximar o 13 de maio - data em que é celebrada a abolição da escravatura - o assunto volta à baila, como um trauma não superado, ou dizendo em melhor linguagem, uma conta em aberto com o passado. Essa data já teve outros significados no último século e meio. No princípio era associada à pessoa da princesa Isabel e apresentada em tons rosados como uma redenção, uma dádiva concedida por uma princesa bondosa que teria virado em definitivo uma página de nossa História. Modernamente se procura dissociar o evento da figura edulcorada da princesa, e se enfatiza que, ao contrário do que diz a história oficial, a página não foi virada, pois os descendentes dos escravos continuam a sofrer as consequências da escravidão.

Antecipando a discussão e as mistificações de sempre, vou procurar levantar aqui o que realmente foi o período escravocrata e quais efeitos ainda se fazem sentir na época atual. Começando pelo verdadeiro papel da princesa Isabel no evento. É um assunto controverso entre os historiadores. Alguns apontam uma militância discreta mas resoluta da princesa em prol da abolição, outros afirmam que ela apenas não se opôs. Não tenho dados aqui a acrescentar, mas foi consenso entre os donos de escravos que Isabel teve um papel decisivo na queda do gabinete do Barão de Cotegipe, o último ministro escravocrata, e na subida do gabinete João Alfredo, que fez a abolição. A partir daí se verificaria uma adesão maciça dos elementos mais conservadores do império à república, que até então contava com poucos apoiadores, de modo que pode-se concluir que fosse qual fosse a motivação de Isabel, ela sofreu as consequências. Entretanto, a circunstância de haver sido ela quem assinou a lei, no lugar de seu pai, que estava doente na ocasião, serviu bem aos propósitos de quem queria revestir o episódio de tons edulcorados, como se a abolição houvesse sido uma bondade da parte do governo, e não uma decorrência de lutas e mobilização. De fato, Isabel chegou quase a ser transformada em uma santa popular por parte dos ex-escravos agradecidos, o que provocou queixas de velhos militantes da causa abolicionista, que lutaram nas ruas e sem dúvida tiveram um papel bem mais penoso do que meramente por uma assinatura em um documento.

Mas o que não fica muito claro é como foi realmente vivenciada a escravidão no país enquanto esteve vigente, e qual a real dimensão de suas consequências nos dias de hoje. A visão que temos hoje do passado escravocrata deriva mais da literatura e da TV do que dos livros. Afinal, os escravos eram brutalizados ou paternalmente bem tratados? Eram rebeldes, ou eram aquelas criaturas dóceis e devotadas a seus senhores? Existia mesmo aquele ambiente de promiscuidade entre senhores e escravos que se afirma ter sido a origem de nosso povo miscigenado?

Parentes de segunda classe, Bens valiosos, Peças

Citar casos particulares não responde à questão, pois há exemplos de todos. Mas as leituras que fiz sobre o assunto permitem-me identificar, grosso modo, três categorias de escravos daqueles tempos.
Os primeiros chamarei de parentes de segunda classe. Eram escravos domésticos de pequenos senhores, que possuiriam no máximo um ou dois cativos. Dividiam o espaço físico e compartilhavam a rotina da família, tal como parentes e agregados, mas eram obviamente parentes de segunda classe. O que não os impedia de obter certa afeição dos donos da casa e ter algum espaço de manobra para conseguir regalias, eventualmente se envolvendo em intrigas da família. De modo geral bem tratados, mas sem muito futuro, pois ainda que conseguissem a promessa de uma carta de alforria, esta raramente era concedida, paradoxalmente porque seus donos os estimavam tanto, que desejavam deixá-los como herança aos filhos. Esses escravos agregados à família deram a origem a duradouros estereótipos, como o negro infantilizado que brincava com os sinhozinhos, mas também o negro ladino fofoqueiro, nunca confiável. A persistência de tais estereótipos criou a impressão de que essa categoria de escravo era a prevalente, quando na realidade era a menos numerosa, pois ter escravos domésticos não era muito compensador. Muitos acreditam que naqueles tempos ter escravos domésticos era tão comum para as famílias da classe média quanto ter hoje empregados domésticos, mas não era bem assim. As famílias da classe média utilizavam de fato o serviço de escravos, mas esses eram em geral alugados, os "negros de ganho" costumeiramente pertencentes a alguma viúva.
 
A segunda categoria chamarei de Bens Valiosos. Eram os escravos pertencentes a pequenos e médios fazendeiros. Esses habitavam as senzalas e já não compartilhavam o espaço da família. Deles era exigido bastante trabalho e estavam sujeitos a castigos, mas seu alto valor ainda impedia que fossem maltratados em excesso. Eram, de fato, os bens mais preciosos que aqueles pequenos senhores podiam ter, e como tal eram considerados. Mas a relativa proximidade entre eles e a família, combinada com sua condição coisificada, que dispensava qualquer deferência, mesmo as devidas a parentes de segunda classe, dava margem a situações imprevistas e bastante inconvenientes, para eles sem dúvida, mas também para seus senhores. Podiam despertar desejos e preencher carências afetivas da parte dos donos da casa, mas sua posição vulnerável também os tornava alvo de ciúme, ódio, sadismo e taras. Desta categoria originaram-se numerosos relatos macabros que até hoje compõem o folclore relacionado ao tempo da escravidão. O escritor Joaquim Manuel Macedo, mais conhecido como autor de A Moreninha, publicou também um livro hoje pouco conhecido, intitulado As Vítimas Algozes, no qual relata episódios onde escravos souberam virar o jogo e passaram de vítimas a algozes de seus senhores, sempre explorando as fraquezas destes e jogando com o alto valor que eles próprios tinham como propriedade. Merece destaque o caso do escravo envenenador, que quando descoberto, era vendido e então envenenava a família de seus novos senhores, e assim sucessivamente, sem jamais ser punido - uma prática comum na época, pois se um escravo cometia crimes, seu valor caía bastante, então era comum que os senhores ocultassem o ocorrido e o vendessem ao invés de entregá-lo à polícia.

A terceira categoria chamarei, simplesmente, de peças. Eram aqueles que trabalhavam nas grandes fazendas com centenas de escravos, e constituíam o grupo dominante da população cativa, considerando-se o regime de latifúndio vigente. Tinham pouco contato com seus senhores, pois os feitores serviam como intermediários, e eram vistos como peças de produção dentro de uma lógica puramente econômica. Isso significava que deveriam render o máximo antes de serem descartados. Estavam sujeitos a um regime severo de castigos, no entanto aplicados de forma rotineira, pois em sua condição de meros objetos não despertavam sentimento algum da parte de seus senhores e feitores, nem afeição e tampouco ódio. Seu sofrimento derivava mais do trabalho exaustivo do que dos castigos. Dada a riqueza de seus senhores, seu valor contava pouco e eram vistos não apenas como peças, mas como peças descartáveis. Embora tenham formado a categoria mais numerosa, são também a menos conhecida, pois em razão de sua condição estritamente impessoal, suas histórias pessoais raramente eram veiculadas, ao contrário do que acontecia com as duas primeiras categorias.

Mas a escravidão ficou no passado, e esses estereótipos não se aplicam à população atual descendente de escravos, embora permaneçam vivos no imaginário. A discussão seguinte é o efeito que a escravidão teria deixado em nosso quadro social marcado pela desigualdade. Parece algo bastante óbvio, mas toda obviedade esconde um raciocínio indolente. Olhando para os lados, vê-se que esse quadro de pobreza e desigualdade é típico também de nossos vizinhos, inclusive daqueles que tiveram bem menos escravidão do que nós e a aboliram ainda no princípio do século 19. De fato, é típico de todo o terceiro mundo, e quero concluir que suas causas são puramente econômicas e não relacionadas à duração do período escravocrata, algo que, aliás, não pertence apenas ao nosso passado, mas em maior ou menor grau, ao passado comum da humanidade. O tema deveria ser tratado com mais isenção e menos mistificação.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Quando a História trava

Lembrando o chavão nem tão velho assim, que garantia que o Brasil é o país do futuro, chega a ser irônico fazer esta constatação: nossa História travou.

O panorama atual parece garantir que o passado passou. A Era PT teve começo, meio e fim, e não apenas ela, mas todo um modo de fazer política parece estar sendo soterrado por escândalos e investigações. Mas não se divisa o futuro. Não se vê a luz no fim do túnel. Nenhuma nova liderança, nova corrente ou novo partido surge na esquina - nem mesmo aqueles arrivistas que costumam aparecer nos momentos de crise. Um bom exemplo dessa atual incapacidade de andar para a frente é o fato de que o candidato com mais intenções de voto para 2018 é o ex-presidente Lula, apesar da convicção generalizada de que ele já cumpriu o papel que tinha a cumprir na História brasileira. Nesse cenário, foi surpreendente ler esse artigo de Demétrio Magnoli, notório desafeto do PT, clamando para que Sérgio Moro ande devagar e não impeça Lula de concorrer às próximas eleições.

Não corra, Moro: o Brasil precisa da candidatura de Lula

A esquerda que clama pela volta do ex-presidente abdicou do sistema econômico socialista, mas continua seduzida pelo monopólio do poder por um “partido dirigente”. A catástrofe venezuelana não merece uma linha de protesto dos fabricantes de manifestos. O Brasil precisa da candidatura de Lula para derrotar, no debate eleitoral, o conceito de que só merecem repúdio as ditaduras de direita

Surpreendente não pelo conteúdo, mas pela coragem de dizê-lo, pois eu próprio já compartilhava essa opinião desde muito: o país precisa da candidatura de Lula em 2018 para que a nossa História enfim destrave.

Lula converteu-se em representação de um Brasil que se recusa a romper com o passado e de uma esquerda hipnotizada por utopias regressivas de segunda mão


Concordo: Lula não é o futuro, mas é a sombra do passado que paira sobre o presente. Diante da pasmaceira do cenário atual, muitos haverão de sentir saudades dos vibrantes anos de Lula. Sabemos que os bons resultados na época deveram-se a uma conjunção de fatores positivos para nossa economia, embora não se deva negar o mérito de Lula em optar pelo pragmatismo e pela manutenção da macroeconomia herdada do Plano Real, que garantiu a estabilidade e permitiu ao país usufruir dos ventos favoráveis. Reconhece Demétrio, Lula é um pragmático, e não um ideólogo. Mas ao anunciar a Nova Matriz Econômica no meio de seu segundo mandato, armando a bomba que viria a estourar no colo de sua sucessora, Lula confirmou seu compromisso com o passado. Não é necessário denotar aqui os maus resultados que se seguiram, confirmando o anacronismo do ideário nacional-estatista neo-varguista apregoado pela velha guarda do PT, que Lula deveria ter descartado em definitivo enquanto teve o poder. O resultante fracasso da economia explica a queda do governo Dilma com pouca ou quase nenhuma resistência popular.

Se, no entanto, Lula for processado e impedido de disputar as eleições de 2018, a indagação ficará aos olhos de todos: e se Lula fosse o presidente?

Seja quem for que vença as eleições, terá sobre si a sombra de Lula e as especulações daí advindas, que com o tempo se tornarão um mito, tal como aconteceu com a Argentina de Evita Perón, que conforme sabemos, conheceu um período economicamente muito favorável graças aos saldos da balança comercial do tempo da guerra, cujo fim coincidiu com a morte por causas naturais da primeira-dama militante, nascendo daí a obsessão nacional: ressuscitar os bons tempos de Evita e Perón. É a sombra do passado que impede a chegada do futuro, e para que nossa História destrave, é imprescindível, sim, que Lula dispute as eleições de 2018. Derrotado, seu tempo estará definitivamente confinado ao passado. Vitorioso, terá a oportunidade de optar mais uma vez pelo pragmatismo, desvencilhar-se do superado ideário esquerdista e fazer um bom governo. Então seu papel na História estará escrito.